Prefácio de “Guadalupe: Um Rio de Luz”

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Prefácio do livro “Guadalupe: Um Rio de Luz a ser publicado” em breve

Tive a ideia de escrever este livro na madrugada do dia 2 de abril de 2017 após ter lido algo acerca das origens do Mosteiro Real de Santa Maria de Guadalupe, que se encontra na cidade homônima em Extremadura, na Espanha. O impressionante edifício de hoje possui origens humildes que remontam aos dias do rei Afonso XI de Castela, que nasceu em 13 de agosto de 1311 e morreu em 26 de março de 1350. Foi apelidado “o Justiceiro” e sob ele foram unidas as coroas dos reinos cristãos de Castela, Leão e Galícia.[1] Seu pai foi Fernando IV de Castela, que se casou com a princesa Dona Maria, filha do rei Afonso IV de Portugal, apelidado “o Bravo”. Durante o reinado de Afonso XI, a Virgem Maria apareceu a um camponês chamado Gil Cordeiro e revelou-lhe a localização de certas relíquias enterradas numa caverna próxima do rio Guadalupe. Entre estas relíquias estava uma imagem da Virgem e do Menino, conhecida hoje como Nossa Senhora de Guadalupe. O rei Afonso XI e seu homônimo de Portugal, Afonso IV, invocaram o auxílio de Maria, Mãe de Deus, antes da batalha do rio Salado, em que as forças combinadas da Espanha e de Portugal enfrentaram um contingente mouro muitíssimo superior. Depois da batalha, Afonso de Castela atribuiu a ressonante vitória cristã à intercessão da Virgem. Em agradecimento, declarou a Igreja de Santa Maria de Guadalupe como santuário real e reconstruiu a modesta estrutura original como uma magnífica igreja românica que sobrevive até os dias de hoje.

Enquanto lia, a história de Gil Cordeiro me fez recordar São Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o vidente mexicano do Tepeyac a quem, em 1531, a Santíssima Virgem Maria apareceu também como Virgem de Guadalupe. Logo notei certos paralelos entre ambas as histórias. Tanto Gil Cordeiro como Juan Diego eram homens de condição humilde; ambos eram cristãos exemplares e homens de família. Gil Cordeiro voltou para sua casa e encontrou seu filho morto, mas a seguir o menino ressuscitou milagrosamente; de outro lado, Juan Bernardino, tio de Juan Diego, foi milagrosamente curado de uma enfermidade mortal. É de se observar que Gil e Juan Diego viveram em tempos de profundas mudanças políticas e religiosas: o espanhol foi testemunha da expulsão dos últimos mouros e da consolidação da Espanha sob uma monarquia cristã; o mexicano, por sua vez, contemplou o fim político e religioso do Império Asteca e do nascimento do México como nação cristã.

Isto tudo não seria mais que uma casual coleção de semelhanças se não fosse o fato de a Virgem Maria ter se apresentado a Juan Diego Cuauhtlatoatzin como “Nossa Senhora de Guadalupe” – o nome “Guadalupe” conecta inevitavelmente ambas as histórias de maneira sobrenatural. Mais tarde, voltei a considerar a origem da imagem espanhola e sua contraparte mexicana e passei a suspeitar que ambas as imagens pudessem ser obra do mesmo autor. Infelizmente, isto permanecerá como mera suspeita, já que não posso entrevistar São Lucas pessoalmente: segundo tradições bem documentadas, no século I São Lucas talhou a imagem hoje conservada em Extremadura. A imagem foi depositada junto dele em Tebas (Grécia) e posteriormente levada para Constantinopla com as relíquias do santo.

Essa fantástica possibilidade me levou a meditar sobre o longo caminho percorrido por essa imagem durante a História, desde os tempos do Império Bizantino até os dias do imperador Moctezuma e, desde então, até os nossos dias. A humilde imagem de algum modo esteve presente na queda de três grandes domínios: o Império Romano, o Andaluz muçulmano e o Império Asteca.

Tempestivamente, tive a oportunidade de ler como cientistas do século XX, fazendo uso das tecnologias mais avançadas de escaneamento digital, descobriram treze pessoas “fotografadas” nos olhos da imagem milagrosamente impressa na tilma de São Juan Diego. Esta extraordinária descoberta me revelou que a imagem não apenas continha uma mensagem para o povo mexicano do século XVI como também tinha algo importante para transmitir às futuras gerações da humanidade. O autor da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe esperou pacientemente por quatro séculos até que alguém pudesse observar sua obra com uma tecnologia mais avançada, que permitisse enxergar a mensagem gravada nos olhos da Virgem. Frequentemente algum amigo protestante bem intencionado me lê o Salmo 115,4-6: “Seus ídolos são de prata e ouro, obra de um artesão. Têm bocas mas não podem falar; têm olhos mas não podem ver; têm ouvidos mas não podem ouvir; têm narizes mas não podem sentir cheiro”. Obviamente, esta espécie de crítica compreende equivocadamente o emprego das imagens no culto católico. A imagem na tilma de São Juan Diego possui en seus olhos uma cena perfeitamente definida. Ninguém conseguiu determinar como ela foi pintada. Talvez a melhor definição foi dada por aqueles que viram a imagem surgir milagrosamente no modesto pano, “como se tivesse sido pintada pelos anjos”, pois definitivamente não é produto de mãos humanas.

Pouco a pouco compreendi que tanto Nossa Senhora de Guadalupe na Espanha quanto Nossa Senhora de Guadalupe no México formam parte de uma majestosa parábola que nos foi apresentada através de séculos de História Cristã. Tentei em vão condensar os muitos aspectos desta parábola divina em poucas palavras. As muitas faces que nos são apresentadas são tão profundas em significado, tão ricas em lições maravilhosas, que só podem provir de Deus Todopoderoso.

Para revelar a grande parábola, precisamos seguir seu caminho através da História, indo e vindo no tempo para compreender os detalhes mais importantes. O leitor me perdoará por não seguir uma ordem cronológica estrita. Mais do que observar uma sucessão de acontecimentos no tempo, estaremos enxergando os muitos ramos de uma árvore antiga; entrelaçada nesses ramos estará uma lição que devemos contemplar antes que possamos compreendê-la totalmente.

O centro da grande parábola é Maria Santíssima. Deus, o Criador de Maria de Nazaré, decidiu nos ensinar os caminhos de justiça e paz através dela. Deus é luz (1João 1,5) e Ele nos apresenta sua Mãe completamente iluminada, vestida como que em uma onda de luz. Na década de 1940, a irmã Maria Lúcia de Jesus Rosa Santos,[2] então a última vidente de Fátima, usou estas palavras para descrever o manto de Nossa Senhora ao pe. Thomas McGlynn: “O manto era uma onda de luz”; e quanto ao manto e a túnica: “Havia duas ondas de luz, uma acima da outra”. Esta simples mas poderosa observação de irmã Lúcia recorda estes versículos do Apocalipse de São João: “Apareceu no céu um sinal maravilhoso: uma mulher vestida com o sol, com a lua debaixo dos seus pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava em sua dor as angústias do parto”. Estes versículos de Apocalipse 12,1-3 revelam perfeitamente tanto uma Mãe de Luz quanto uma Mãe de Dores.

Nos ensinaram que a mulher de Apocalipse 12 é Israel, que mais tarde se converte na Igreja, continuamente dando a luz aos fiéis através dos séculos. Creio que a cena também pode representar Nossa Santíssima Mãe, a Mãe do Salvador de Israel e a indiscutível Mãe de todos os fiéis cristãos. Até porque ela era a única filha perfeita de Israel, o vaso sagrado que continha em si mesma a vida de Cristo. Portanto, ela própria foi a primeira Igreja, a primeira evangelizadora e a primeira discípula de seu Filho. Alguns creem que quem salva a vida de um homem salva todas as gerações que possam vir deste homem. Como poderia a Mãe do Messias – Salvador de Israel e da raça humana – não ser a Mãe de todos aqueles a quem Ele salvou, dando-lhes a vida eterna? Quem mais poderia estar vestida com o sol, rodeada da luz de Deus, senão aquela que nasceu cheia de graça?[3]

Antes de ingressar nas lições desta maravilhosa parábola pintada por Deus no tecido do espaço e do tempo, considere as palavras de Jesus no Evangelho de João; Deus nos mostra a História como o desenvolvimento do seu propósito: dar vida à humanidade. E para nos dar a vida, Deus nos deu primeiramente uma Mãe.[4]

O desenvolvimento da sociedade asteca e o seu fim calamitoso é modelo sob medida da presente ordem mundial. Quando uma sociedade se afasta dos limites da Lei Natural e se torna cada vez mais perversa, Deus corrige esse curso mediante certos eventos naturais, através de pregadores, profetas, sinais milagrosos etc. Nesta primeira fase, Deus, como bom Pai, tenta afastar seus filhos do caminho do mal. Se todas essas ações não levam os malfeitores à retidão, então inevitavelmente se segue um castigo. Inclusive nos casos em que um justo castigo não seja aplicado, certamente se segue um período de purificação. A purificação global ocorreu no passado: a inundação de Noé é um bom exemplo do que pode ocorrer a um mundo distante de Deus e sob a influência de espíritos malignos. Lemos na Bíblia sobre as muitas tribulações que acometeram Israel quando este abandonou Deus e sua Lei; a opressão, o exílio, a destruição do Templo, a escravidão e outros males vieram como consequência dos longos períodos de desobediência. O historiador agnóstico não consegue enxergar nada de incomum nestes eventos, mas aqueles que observam acuradamente descobrem um padrão, um ensinamento. O fim do Império Asteca não se deu de maneira diferente; sua queda e a conversão que se seguiu compõem uma poderosa parábola. A conversão pode ter ocorrido voluntariamente – de fato, o imperador Moctezuma tentou, sem sucesso, entregar o México aos conquistadores – porém a hierarquia política e religiosa asteca rejeitou esta última oportunidade para mudar e sobreviver. Não conseguiram enxergar a mão de Deus agindo para operar sua salvação. Este fracasso resultou em um período de dura purificação, ao qual muitos deles não sobreviveram.

Hoje em dia há muitos que promovem a ideia de que “Deus não castiga”, sob o pretexto de que Deus, que é perfeitamente bom e benevolente, não poderia trazer o mal sobre ninguém. Alguns, inclusive, para apoiar esta ideia, fazem uso de passagens cuidadosamente pinçadas de teólogos bem conhecidos. Os frutos desta linha de pensamento são evidentes: este raciocínio se reduz, entre os mais simples, a um “não existe o castigo” e, posteriormente, isto se transforma no lema daqueles que claramente querem introduzir práticas desviantes e heréticas na doutrina da Igreja. Quando todos os demais meios de correção fracassam, sobrevém o castigo. Se Deus está realizando diretamente esse castigo ou simplesmente permitindo que o mal siga o seu curso, é meramente uma questão semântica. O certo é que haverá castigo para aqueles que se obstinam no mal, venha de onde vier esse castigo. Essa é a mensagem que lemos claramente tanto na História Sagrada quanto na secular. Com Deus não há crime perfeito.

Podemos aprender esta lição da História: quando os pecados alcançam certo nível – em uma pessoa ou em um grupo qualquer, tal como uma nação – se seguirá um castigo. Isto é o que razoavelmente podemos esperar que ocorra à presente civilização global. Desta vez a maldade não está afetando um só país ou uma certa região limitada, mas toda a civilização global em que vivemos. Toda a ordem mundial começou a se afastar da lei natural; depois, se atreveu a rejeitá-la; e agora está tentando abolí-la de modo agressivo. No âmbito individual, as pessoas estão preocupadas com o trabalho, com as posses, com  sexo e com outros esforços vãos; Deus está cada vez mais ausente à medida que nos convertemos em uma sociedade mais agnóstica, que se volta contra os crentes em geral e contra a Igreja Católica em particular. É simplesmente razoável esperar que Deus venha intervir nos assuntos humanos agora que a sociedade global se converteu em um instrumento gerador de toda espécie de perversão. Se Deus age como agiu no passado, é lógico esperar que venha destruir esse instrumento de perversão juntamente com aqueles que fazem parte dele. Em nossa ordem mundial, este instrumento é a própria sociedade. Uma purificação virá através dos meios habituais: sofrimento, pestilência, guerra etc. Nossa Senhora de Fátima alertou a humanidade em 1917 que, exceto se a humanidade deixasse de ofender a Deus, viria uma outra guerra. O castigo veio a ocorrer tal como foi predito: veio a Segunda Guerra Mundial e foi muito mais destrutiva do que a Primeira.

Creio que estamos nos aproximando de um tempo de purificação, que afetará o mundo inteiro. Apenas Deus sabe o momento e a natureza exata desse evento, mas creio que é razoável esperar que seja proporcional à força que agora se opõe à Lei Natural. Entramos numa fase de agressão contra tudo o que é santo e, em particular, contra a Igreja Católica.

É “pessimista” pensar desta forma? De maneira nenhuma! Isto porque se esta sociedade for abandonada aos seus próprios meios certamente se autodestruirá. E esperar que algum acontecimento possa vir a impedir esta autodestruição é com certeza uma atitude muito otimista. Quando se considera a velocidade atual de mudança da nossa sociedade, parece pouco provável que a paciência de Deus permitirá que isto continue por mais uma geração; isto apenas permitiria que mais almas se perdessem enquanto a situação permaneceria se deteriorando. De fato, o tempo que ainda temos deve ser considerado como uma brecha para a conversão e o arrependimento. Quando alcançarmos o limite, a intervenção de Deus nos assuntos humanos não apenas será justificada como também será bem-vinda.

Quando Hernan Cortez pôs fim aos sacrifícios humanos e ao canibalismo ritual no México, o fez com o apoio de muitas tribos e grupos que tinham sofrido na própria carne essas práticas tão cruéis durante várias gerações. É claro que não foi a habilidade política do espanhol que fez com que o povo do México se rebelasse contra os seus opressores astecas, mas também o efeito acumulado de muitos anos de sofrimento. Da mesma forma, esta sociedade global está colhendo os frutos dos movimentos do pós-guerra que pouco a pouco conseguiram impor os ideais dos intelectuais dos anos sessenta e setenta. Muitos de nós podemos enxergar que isto está piorando num ritmo alarmante. Quando Deus intervier para por fim a esta idade perigosa, muitos se sentirão aliviados e concordarão que não poderíamos mesmo continuar vivendo assim, como se Deus e a justiça não existissem.

Em 1531, Santa Maria de Guadalupe completou a obra de Cortez, convertendo milagrosamente milhões de nativos mexicanos à fé de Cristo. Uma nação católica nasceu depois das “dores de parto” da conquista do México.

É razoável esperar um milagre semelhante em nossos dias? Creio que os segredos da tilma de São Juan Diego revelados na nossa época com o auxílio da recente tecnologia são um chamado para esta geração. O reflexo de treze pessoas – incluindo aí Juan Diego – nos olhos de Nossa Senhora de Guadalupe, as estrelas no seu manto, as flores no seu vestido e a música escrita na imagem, não eram sinais legíveis em 1531; mas são mensagens para a nossa geração e podem ser o prelúdio de sinais ainda mais evidentes que estão por vir. A mensagem essencial da tilma de São Juan Diego é simples: “Deus existe. Ele é o Deus dos cristãos. Sua Igreja é a Igreja Católica e não há outra. Ele confiou a Maria de Nazaré a missão de preparar o seu povo”. Tenho a esperança que este livro ajude muitos a prestar atenção à mensagem de Guadalupe para a salvação de suas almas.
Trad. Carlos Martins Nabeto


NOTAS

[1] Afonso XI, “o Undécimo”, foi filho de Afonso X, “o Sábio”. Afonso XI foi também o 3º tataravô de Isabel de Castela, “a Católica”.

[2] O nome Maria Lúcia de Jesus Rosa Santos inclui vários elementos do milagre de Guadalupe: Maria, luz (do latim “Lúcia”, “nascida com a aurora” ou “luminosa”), Jesus, a rosa e os santos. Maria Lúcia é também o nome da esposa de Juan Diego.

[3] Lucas 1,28.

[4] João 10,10.

Guadalupe: um rio de luz

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Rio Guadalupejo e Centro de Guadalupe – Extremadura, Espanha

“Guadalupe: um Rio de Luz” é um pequeno livro escrito com a ideia de concentrar muita informação em poucas páginas, de maneira que os leitores não sejam intimidados por um livro enorme. O livro é como que raminhos secos usados para iniciar uma fogueira, eis que apresenta diversas perguntas interessantes: São Lucas foi o artista que pintou a Tilma? A conquista do México foi um sinal, um dos muitos modelos escatológicos que surgem na História e que envolvem a imagem encontrada no túmulo de São Lucas? Etc.

A sagrada Tilma intriga-nos porque é verdadeiramente um objeto extraterrestre que ingressou em nosso universo. Isso foi o que descobriu o dr. Richard Kuhn, Prêmio Novel de Química em 1938, judeu e ateu. Quando lhe deram para analisar uma pequena amostra da tilma, não conseguiu identificar as “tinturas” porque… o número atômico desses elementos não constava na Tabela Periódica dos Elementos de Mendeleyev. Kuhn ficou intrigado e passou os anos da Segunda Guerra Mundial a salvo no México, estudando a imagem e isto o fez tornar-se católico. Kuhn, vencedor do Prêmio Nobel, resolveu pegar a estrada larga da razão e do conhecimento para “enxergar” a Tilma, mas acabou tirando a mesma conclusão daqueles nove milhões de nativos mexicanos do século XVI.

A Tilma abre os olhos da fé; é como um livro, um Evangelho, uma representação gráfica do Apocalipse e de muitas coisas mais. Os três homens que participaram da revelação da Tilma chamam-se “João” (do hebraico Yohanan, יוֹחָנָן‎): Juan Diego Cuauhtlatoatzin, Juan de Zumárraga (o bispo) e Juan González (o tradutor). O Apóstolo João também é conhecido nas Escrituras como “a águia” e um dos “filhos do trovão” (do grego boanerges). O nome original de Juan Diego, “Cuauhatloatzin” significa “aquele que fala como uma águia”. Há muitas coincidências fascinantes em torno da Tilma sagrada, mas a mensagem essencial é simples: “Deus existe; Ele é o Deus dos cristãos; sua Igreja é a Igreja Católica e não há outra; Ele a confiou a Maria de Nazaré para que preparasse seu povo”.

Não há maneira alguma de explicar as muitas mensagens espantosas que ainda estão sendo reveladas. Ainda recentemente, me informaram que uma peça musical com uma incrível melodia foi achada condificada dentro da imagem. Ouvi a melodia e me veio à mente uma canção escrita há alguns anos por um artista brasileiro; esta melodia foi escrita fazendo uso da métrica e das notas encontradas na gravação do sinal de um pulsar. O pulsar é um tipo diferente de astro, mas aqui o que me interessa é a melodia. Por outro lado, um quasar é uma “fonte de rádio quase estelar” de muitas que se encontram na borda externa do nosso universo e que emite quantidades de energia excepcionalmente imensas, que chegam até nós após viajarem por milhões de anos. Só é possível observá-las com poderosos telescópios ou “ouvi-las” com radiotelescópios. Augusto de Campos e Caetano Veloso ouviram o eco radial de um pulsar e compuseram uma peça musical com ele:

“Onde quer que você esteja
Em Marte ou Eldorado
Abra a janela e veja
O pulsar quase mudo
Abraço de anos-luz
Que nenhum sol aquece
E o oco escuro esquece”

A canção pode ser ouvida neste vídeo:

 

Recentemente alguém descobriu que as estrelas que aparecem no manto de Santa Maria de Guadalupe poderiam representar uma certa notação musical. Dispuseram as estrelas numa partitura e a deram para um pianista interpretar. Pouco depois foi feito um arranjo musical para acompanhar a melodia, que soa belíssima e misteriosamente inquietante:

Não parece haver fim para as muitas maravilhas contidas na humilde tilma de São Juan Diego. Recentemente, a própria imagem de Juan Diego foi encontrada refletida no olho de uma pequeníssima figura do Bispo Juan de Zumárraga, refletido este nos olhos de Nossa Senhora! Um pequenino reflexo dentro de um reflexo muito menor! Como pode a ciência ignorar estas maravilhas? Ultimamente não vi nada disto nas primeiras páginas dos jornais.

Voltando ao tema, o livro “Guadalupe: um Rio de Luz” tenta apenas despertar a nossa curiosidade para os mistérios da fé. Estou convencido de que estamos muito próximos de um evento extraordinário de origem divina. O que é e quando ocorrerá? Quisera eu ter as respostas para essas perguntas! Posso ver como os sinais ocorrem cada vez com maior frequência. O mundo parece mover-se perigosamente para a beira do abismo. E é possível que você, caro leitor, também tenha notado os sinais.

Lucas 12,37 – “Felizes os servos que o Senhor, à sua chegada, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: ele se cingirá e os colocará à mesa; e passando de um a outro, os servirá”.

“Guadalupe: um Rio de Luz” já está disponível em inglês no formato Kindle e também no formato impresso. As correspondentes edições em espanhol e português em breve também estarão disponíveis.

Trad.: Carlos Martins Nabeto

A águia que fala

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Texto extraído do livro “Guadalupe: Um Rio de Luz” a ser publicado em breve

O ícone que a tilma de São Juan Diego nos apresenta é carregado de significado, cheio de sinais como que para confundir até mesmo o mais perspicaz dos analistas. Muitos sábios talentosos estudaram a imagem da Virgem de Guadalupe para compreender melhor os vários estratos simbólicos que ela contém. Obviamente, estamos contemplando um grande mistério e revelá-lo levará diversas gerações. Não temos outra opção senão “nos amparar sobre os ombros” dos estudiosos que nos antecederam e continuar o trabalho deles. É possível dizer que toda a experiência de Guadalupe tem sua própria semiose[1], sua própria maneira de gerar sinais que superam os limites da representação icônica e penetram na própria História, usando pessoas, línguas, nações e, inclusive, as constelações celestes para transmitir uma mensagem tão rica em significado e ainda assim tão simples em soteriologia: “Não estou eu aqui? Eu, que sou tua Mãe?” Esta não é uma pergunta retórica. Nossa Senhora de Guadalupe está dizendo apenas que se a aceitarmos como nossa mãe ela nos “dará o seu Filho” para alcançarmos nossa salvação eterna.

Quando Juan Bernardino estava doente e à espera da morte, Juan Diego foi buscar um sacerdote católico para assistir seu querido tio. Estava a caminho da igreja quando se encontrou com a Senhora do Céu. Foi então que ela lhe dirigiu estas palavras de consolo que hoje todos nós conhecemos: “Não estou eu aqui? Eu, que sou tua mãe?” As palavras de Nossa Senhora ecoam as palavras de Jesus na Cruz registradas por São João Evangelista: “Quando Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a tua mãe’. E a partir daquela hora o discípulo a recebeu em sua própria casa”[2]. Para Maria, Mãe de Deus, sua própria maternidade é o cumprimento de uma ordem divina: “Serás uma mãe para os meus queridos discípulos”. No Calvário, São João representa os discípulos fiéis de todos os tempos e Maria é a Mãe de todos os discípulos a partir desse mesmo instante.

Após os acontecimentos de 1531, todos os mexicanos receberam a imagem e a mensagem da Virgem de Guadalupe em sua terra natal e lhes foi concedida a paz. Ao longo da História Cristã sempre existiram iconoclastas que criticaram o uso de imagens na prática religiosa, baseando suas ações em uma interpretação literal e limitada do 2º Mandamento. Muitos apologistas critãos no decorrer dos séculos refutaram essa crença errônea. Apenas diremos aqui que as imagens foram retamente empregadas por Deus para ensinar e, inclusive, curar o seu povo. Um exemplo bem conhecido é a imagem que Moisés preparou no deserto para curar os israelitas picados por serpentes venenosas:

– “O povo se aproximou de Moises e lhe disse: ‘Pecamos murmurando contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor para que as serpentes se afastem de nós’. Moisés intercedeu pelo povo e o SENHOR disse a Moisés: ‘Faz [a imagem de] uma serpente venenosa e coloca ela sobre uma estaca; quem quer que tenha sido picado e vier a olhá-la, viverá’. E Moisés fez uma serpente de bronze e a colocou sobre uma estaca; e quando uma serpente picava alguém, este olhava para a serpente de bronze e vivia”[3].

Este relato do livro dos Números foi logo usado por Jesus para exemplificar como ele seria “erguido” numa cruz romana: “E assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja erguido, para que todo aquele que nele crê tenha vida eterna”[4].

Muita teologia já foi escrita para comentar esses versículos, mas aqui nos concentraremos em como a serpente de bronze de Moisés e a Cruz do Calvário são similares ao erguimento da imagem milagrosa perante o humilde povo mexicano de 1531.

Para começar, a imagem erguida no deserto era uma reprodução em bronze de algo real que estava prejudicando o povo. Moisés foi instruído a confeccionar uma serpente enquanto Deus concedeu à imagem um poder especial: todos aqueles que olhavam para a serpente de bronze poderiam ser curados das picadas de serpentes reais. O sinal “significa” cura. Os filhos de Israel admitiram que as serpentes eram um castigo de Deus pelos seus próprios pecados. Muitos séculos depois, Cristo usaria este relato como uma parábola de sua própria missão: ser içado na Cruz pelos pecados do povo. Do mesmo modo que a serpente de bronze neutraliza o veneno das serpentes reais, Cristo, imagem perfeita de Adão, neutraliza o veneno do pecado original ao ser erguido na cruz à vista de todo o povo. O princípio é claro: Deus combate o fogo profano com fogo santo[5]. Estes exemplos mostram também como Deus e os homens trabalham juntos para a salvação de todo o gênero humano.

É aqui que devemos recordar a figura de Coatlicue Toniatzin, a Mãe Terra da mitologia asteca. Ela vestia “uma saia cheia de serpentes”, mas também recordava os homens que todo aquele que nasce deve irremediavelmente morrer.

Da mesma maneira que a serpente de bronze de Moisés neutraliza o veneno das serpentes reais, Nossa Senhora de Guadalupe chegou para neutralizar o veneno dos deuses diabólicos, a descendência sanguinária de Coatlicue, mãe mitológica dos deuses astecas.

Quando a Virgem de Guadalupe chegou para evangelizar o povo do México, ela resolveu apresentar-se diante deles como uma mãe, falando no seu próprio idioma, empregando alguns dos símbolos da sua religião, descartando o que era ruim e retendo o que era bom, como São Paulo aconselhara aos tessalonicenses[6].

Seguindo o exemplo de Moisés e Jesus, Deus nos apresenta a imagem da Virgem de Guadalupe na colina de Tepeyac, onde antes ficava o templo de Coatlicue Toniatzin. Dessa forma, Nossa Senhora ocupou um território governado por demônios, reclamando-o como seu por direito de conquista. Ela tinha feito o mesmo em todo o Oriente Médio, Ásia e Europa, onde os cristãos converteram pouco a pouco as antigas basílicas pagãs dedicadas a Vênus Afrodite, Artemis Diana ou Ceres Bona Dea em templos cristãos. Maria de Nazaré vinha agora reclamar seus filhos mexicanos e curá-los dos efeitos da venenosa doutrina asteca. Para conseguir isso, se apresentou como mãe, assim como Cristo se apresentou como homem para nos salvar: “Aquele que era livre do pecado, por nós se fez pecado, para que nele recebêssemos a justiça de Deus”[7].

À medida que nos adentrarmos mais e mais nos muitos sinais que se apresentam aos mexicanos na tilma de Juan Diego, nos daremos conta de que a imagem é um “amoxtli”[8] apresentado pelo Céu, um códice divino projetado para convertê-los a Cristo.

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“Amoxi” asteca com anotações espanholas.

Chegamos aqui ao limite do nosso espanto. Qualquer um pode enxergar que um ayate do século XVI não pode sobreviver naturalmente por cinco séculos. É claro que os céticos dirão automaticamente que a imagem é substituída de vez em quando pela Igreja “malvada” para manter os mexicanos simples no engano. Esta é a primeira e talvez a mais honesta das muitas objeções que apresentam. A simples, quase infantil honestidade da história de Juan Diego, as muitas autoridades que examinaram a tilma no decorrer dos anos e a conversão sincera de tantos céticos – incluindo eu mesmo – deveria ser suficiente para conformar os que ironizam a milagrosa preservação do ayate muito além dos seus limites naturais. Certamente, Deus – que vive fora do tempo – incorporou na imagem uma série de provas que nenhum ser humano poderia falsificar. Isto restará claro à medida que examinarmos o seu significado específico.

Na minha opinião, o elemento mais impressionante é algo que eu chamaria “o Alef de Maria”[9], já que me faz recordar “O Alef”, um conto famoso de Jorge Luís Borges. Neste, o protagonista descobre um ponto no espaço que contém o universo inteiro. Qualquer pessoa que olhe o Alef de Borges poderá ver com clareza todo o universo de uma só vez, em todas as suas instâncias de espaço e tempo. Algo semelhante parece ocorrer com a imagem milagrosamente impressa na tilma de Juan Diego. Tal como os israelitas podiam “olhar para a imagem” da serpente de bronze e ser curados pelo poder de Deus, também o México foi curado ao olhar para a Virgem de Guadalupe. Os numerosos sinais contidos nessa imagem da Virgem Maria continuariam sendo objeto de contemplação e reflexão nos séculos seguintes. A imagem contém o que parece ser um número infinito de tesouros espirituais. Está impregnada do poder de Deus.

Para a mentalidade cristã, a Cruz será sempre um sinal de salvação, não de condenação. A serpente de bronze de Moisés é uma cópia, uma imagem de uma serpente de verdade; e a Cruz (em grego, “stavros”) é a contraparte da árvore do conhecimento do bem e do mal (em grego, “stavros”, na Septuaginta). Em ambos os casos (picadas de serpente, o pecado original), uma coisa prejudicial é derrotada pelo seu próprio reflexo. O reflexo é um sinal de que Deus o dotou com o poder de destruir essa coisa prejudicial. Da mesma maneira, a tilma “refletia” alguns atributos de Coatlicue Toniatzin e os nativos podiam imediatamente reconhecê-los. Também percebiam que na imagem faltavam as más qualidades de Coatlicue e que esta nova mãe não era apenas suave, terna e pura; tinha também o poder de curar e podia restaurar a vida ao seu povo.

Diferentemente de Coatlicue, Nossa Senhora de Guadalupe não mata seus próprios filhos. Isto resta evidente pela forma como a Perfeita Virgem Maria tratou Juan Diego quando este fracassou na tarefa de efetivamente entregar a mensagem da Virgem. Ali Juan Diego representa todos os homens imperfeitos: sempre ficamos aquém quando se trata de fazer o que é certo. Os nativos observavam que a mãe natureza podia ser uma mãe bastante generosa, porém era também implacável com aqueles que se esqueciam de respeitar os limites da natureza. Quando Maria de Guadalupe apareceu a Juan Diego – já não como uma deusa que tira a vida, mas como uma Mãe misericordiosa e que dá a vida – já ali os nativos perceberam a diferença. Eles aguardavam o início da “Idade do 5º Sol”, algo que com o passar do tempo transformaria as próprias regras da natureza; um mundo de misericórdia e amor estava substituindo a crua realidade que lhes cabia viver. Nossa Senhora de Guadalupe não pedia que os corações de seus filhos fossem cruelmente arrancados a golpes de punhais; pelo contrário, pedia para consagrarem seus corações a ela em obras de amor e misericórdia. Juan Diego foi o modelo que ela escolheu: um homem humilde, conhecido por viver uma vida austera de serviço aos demais.
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A bela face de Maria é a característica mais emotiva da imagem. Ela está apenas sorrindo, como uma mãe que cuida do filho que se recupera de uma doença. Irmã Lúcia de Fátima encontrou as palavras perfeitas para descrever os sentimentos maternais da Virgem: “terna tristeza”. Ninguém teria descrito Coatlicue e seus sacerdotes com essas palavras. A imagem da Virgem de Guadalupe está dizendo: “Eu sou como vós. Cuidarei de vós. Sou vossa mãe. Tudo dará certo”.

A voz da águia

Juan Diego, o visionário do Tepeyac, é ele próprio parte do complexo simbólico da história de Guadalupe. Residia no Cuautitlan, um bosque que se encontra a poucos quilometros a noroeste de Tenochtitlan. Seu nome nativo, Cuauhtlatouac, significa “águia que fala” ou “aquele que fala como águia”. Foi um dos primeiros nativos a ser batizado; talvez seu catequista tenha associado seu nome ao Apóstolo São João, o águia[10] e um dos “filhos do trovão”[11]. Ambos compartilham o nome de João, derivado do nome hebraico Yochanan, que significa “Deus é misericordioso”. Como vimos nos capítulos anteriores, ambos – o Apóstolo João e Juan Diego – tiveram visões, onde as realidades sobrenaturais se apresentavam como pedras preciosas refletindo a glória de Deus. No Apocalipse, João foi convidado a “subir” da mesma forma que Juan Diego foi convidado a subir o Tepeyac. Ambos ouviram música antes de subir: João ouve as trombetas e Juan Diego ouve os cantos dos pássaros em contraponto com a música que vem da própria montanha. São João no Apocalipse: “Depois disto, vi no céu uma porta aberta! E a primeira voz, que eu havia ouvido falar como uma trombeta, disse: ‘Sobe aqui e te mostrarei as coisas que se sucederão dentro de pouco tempo”. Enquanto é mostrado a São João o Trono de Deus em todo seu esplendor, a Juan Diego é mostrado um Tepeyac glorificado, em que inclusive as plantas comuns da região brilham transformadas em belas joias que refletem a luz celeste.

Ambas as visões anunciam as futuras bênçãos que Deuz trará sobre a humanidade quando o mundo estiver novamente livre do pecado e da maldade. O trono que São João vê em sua visão é algo muito mais glorioso que o trono de Zeus-Júpiter, que costumava ser uma das Sete Maravilhas do mundo antigo de seu tempo. Do mesmo modo, Juan Diego contempla o Tepeyac com uma glória que jamais teve quando o templo de Coatlicue estava ali. A ambos os videntes é permitido entrever uma idade futura. Visto que os astecas estavam esperando pela Idade do 5º Sol, essa expectativa coincidia perfeitamente com o que os indígenas aguardavam.

A Perfeita Virgem Santa Maria de Guadalupe unia à perfeição duas nações e duas idades: uma idade que já passava e outra que começava a alvorecer. Para a mentalidade nativa, isso se mostrava evidente pela forma como a costura da tilma divida a tela em duas metades. A costura representava adequadamente uma divisão entre “o antes e o depois” com a amorosa face de Maria olhando confiantemente para o futuro, suas mãos unidas como dando palminhas e seu joelho esquerdo levantado como se estivesse dando um passo a frente enquanto dançava feliz. Como os astecas não rezavam com as mãos juntas, o gesto de Maria tem um duplo significado: palminhas para os nativos, oração para os espanhóis.

A história se desenvolve ao longo de quatro manhãs sucessivas, de 9 de dezembro até 12 de dezembro. É importante recordar que em 1531 a Igreja celebrava a Imaculada Conceição no dia 9 de dezembro; atualmente, os católicos observam essa festa no dia 8 de dezembro. Os nativos mexicanos se preparavam para celebrar o dia do solstício de inverno – que nesse ano ocorreu em 12 de dezembro -, o dia de seu deus-sol. Acreditavam que quatro sóis tinham existido em quatro idades anteriores; e todos eles tinham morrido no final de cada idade. A chegada dos espanhóis e o fim da antiga ordem imperial foi para eles prova suficiente de que uma nova era se abria; Huitzilopotchli morria para dar passagem a Cristo.

O nome nativo de Juan Diego, “aquele que fala como águia”, certamente não passou despercebido pelos nativos ao ouvirem pela primeira vez a história das aparições da Virgem. Juan Diego era como o Cuauhxicalli, a águia que subia ao céu levando as oferendas ao deus-sol. A nova parábola se enquadrava perfeitamente à mente nativa: Cuauhtlatouac falava com a autoridade da águia-sol, o maior de todos os deuses. Ele havia se encontrado com a perfeita Santa Maria de Guadalupe, Mãe de Deus. Uma nova era começava e ela queria ser uma mãe para eles tal como Coatlicue havia sido nos séculos anteriores. Porém, esta nova mãe era poderosa: podia curar, havia feito cessar os sacrifícios humanos e as guerras floridas. [As guerras floridas eram guerras entre os astecas e seus povos conquistados. Guerras sem armas onde o objeto era capturar guerreiros para sacrificá-los no altar de Huitzilopochtli. Eram como um esporte, mais ou menos, porém o capturado vivia por um tempo com a família do guerreiro que o tinha capturado e, ao final de 1 ano, era sacrificado.] Cuauhtlatouac – um nativo dentre eles – era o mensageiro da Virgem, o escolhido para falar a palavra de Deus com dignidade, inclusive aos sacerdotes espanhóis. Alguns deles não tinham visto o próprio Bispo Zumárraga e seus auxiliares se ajoelharem diante de Juan Diego e da Imagem, chorando e pedindo perdão?

Obviamente, é muito difícil saber o que se passava na mente dos nativos à medida que ouviam a história de Juan Diego contada e escutada milhões de vezes. O que realmente sabemos é que os indígenas encontraram uma nova dignidade na ordem cristã recém-chegada. Talvez seja essa a razão pela qual a Perfeita Virgem Maria decidiu unir a Espanha e o México sob uma só advocacia de Santa Maria de Guadalupe. Como muitas outras mães tinham feito através das idades, Maria estava ensinando seus filhos a se conduzirem bem.

A tela impossível

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Imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, Capela do Coro do Mosteiro da Extremadura. Observe as semelhanças com a imagem impressa no tilma de São Juan Diego

A tilma ou ayate típico é feito de fibras de piteira conhecidas como ixtle, tecidas em um tear de cintura. Normalmente, para se fazer o material base retira-se a carne da planta para expor as fibras que mais tarde são penteadas, lavadas, secadas e enroladas em novelos. É um material bem rústico, semelhante à estopa, mas muito resistente e forte.

O ayate de Juan Diego é feito de duas peças separadas costuradas com um fio de algodão. Os dois painéis de tela se unem um pouco à esquerda da cabeça de Nossa Senhora. A costura é bem visível e se estende verticalmente ao longo da longitude da tela, dividindo-a em duas seções com quase o mesmo tamanho. Por volta de 1531, os homens nativos usavam uma grande tanga, sandálias e uma tilma. A tilma tinha muitos usos; os homens podiam usá-la como capa ou como uma bolsa para carregar coisas.

A tela de ixtle dura apenas alguns poucos anos de uso normal, mas quando cuidadosamente conservada pode durar entre duas e três décadas. A tilma com a imagem da Virgem tem mantido sua integridade estrutural e plasticidade sem qualquer sinal de deterioração durante quase cinco séculos! Suas duas peças unidas medem cerca de 106cm por 168cm. O ayate de Juan Diego repele insetos e microorganismos como fungos e bactérias. Por alguma razão desconhecida, também repele o pó e outros elementos contaminantes presentes no ar.

Uma parte importante do milagre do Tepeyac é que ninguém consegue explicar como a tilma sobrevive até os nossos dias. O material deveria ter se deteriorado já há muito tempo. Muitos céticos afirmam – sem qualquer prova – que o milagre é um embuste em curso: a tilma simplesmente é substituída periodicamente. Essa afirmação foi muitas vezes desacreditada em muitos aspectos, porém alguns continuam repetindo a mentira.

Em 1752 foi permitido a Miguel Cabrera[12], famoso pintor mexicano, estudar a tilma de Juan Diego; ele fez diversas cópias da imagem[13]. Ele é o autor do livro “A Maravilha Americana”[14], um relatório para o Colegiado de Guadalupe, em que aplica sua ampla experiência para analisar a imagem a partir de um ponto de vista estritamente artístico. Examinando a tela, a olho nu, concluiu que partes da imagem foram feitas a óleo, outras a têmpera e outras “a guache”[15]. Ele foi o primeiro a observar que os raios de sol que rodeiam a imagem foram pintados com uma técnica que faz com que as cores pareçam fazer parte das fibras. Acrescentou que, segundo seu conhecimento, nenhum artista teria jamais tentado combinar essas técnicas de tal maneira. Também assinalou que alguém capaz de fazer tal obra prima jamais teria escolhido trabalhar numa superfície tão grosseira e inadequada como uma tela feita de ayate.

Um dos muitos céticos foi um ateu austríaco, físico e químico, o dr. Richard Kuhn, que ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1938 por seu trabalho com carotenóides e vitaminas. Em 1936, o dr. Kuhn pôde examinar duas pequeninas fibras da tilma. Não lhe foi dito nada acerca da sua origem. Ele corretamente as datou como sendo do século XVI, porém não conseguiu equacionar as cores a nenhum tipo conhecido de pigmentação de origem animal, vegetal ou mineral. Usando um espectrofotômetro, determinou que fossem quais fossem os componentes básicos desses pigmentos, estes não existiam na tabela periódica dos elementos. Depois que concluiu a análise, o dr. Kuhn quis saber a origem dessas fibras. Foi-lhe dito que procediam da tilma de Juan Diego, o visionário do Tepeyac. Obviamente, o dr. Kuhn não sabia nada acerca de Juan Diego ou do milagre do Tepeyac, porém visitou o México várias vezes e, por fim, investigou detalhamente o assunto. E deste modo converteu-se à fé católica. Morreu como fiel católico em Heidelberg, na Alemanha, em 1967. A tilma de Juan Diego ganhou um convertido através da fé e da razão.

Os símbolos de Guadalupe

cover-smallA imagem impressa na tilma de Juan Diego foi considerada pelos nativos mexicanos como um amoxtli, isto é, um códice criado por um escriba ou tlahcuilo. Os códices astecas registram relatos, fatos históricos e outros eventos importantes em pele de veado ou em folha flexível de papel feita a partir da casca de uma árvore ou de outra fibra disponível. Graças ao trabalho de pesquisadores como o Pe. Mario Rojas Sanchez, os símbolos e o significado que aparecem na tilma estão pouco a pouco sendo revelados após séculos de estudos. Na minha opinião pessoal, após alguns anos de contemplação da imagem e leitura sobre seu significado, creio que o ayate de Juan Diego fala através de sua própria semiose e, obviamente, possui seu próprio processo de significação, um processo que combina o cânon desenvolvido nas antigas culturas mesoamericanas com o não menos antigo cânon bizantino que se desenvolveu gradualmente no Oriente desde os dias de São Lucas. Gostaria de expor algo específico aqui: que a imagem da Virgem de Guadalupe seja talvez parte importantíssima de um metassistema simbólico mais complexo que os sinais apresentados individualmente aos fiéis de todas as idades desde os dias em que São Lucas fez a primeira imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, aquela que atualmente é venerada no mosteiro de mesmo nome, em Extremadura, na Espanha.

Dom Columbano Hawkins, OCSO, conta um fato muito interessante em seu ensaio “An Iconography of Guadalupe”: “No entanto, por incrível que pareça, quando a um sacerdote ortodoxo russo, Pe. A. Ostrapovim, decano da cátedra de Arqueologia da Igreja em Moscou, familiarizado com a história da Virgem de Guadalupe, foi-lhe apresentada uma cópia da imagem para sua aprovação, respondeu que aquilo era um ícone, sem dúvida do tipo bizantino e presumivelmente de origem oriental-asiática. Opinava que o pintor deste ícone tinha se desviado dos cânones bastantes rígidos da iconografia e incluiu nele muito de si mesmo”[16]. Esta análise precisa reforça a minha ideia de que talvez – e devo adverti-lo encarecidamente, estimado leitor, que isto é apenas uma impressão pessoal – São Lucas Evangelista possa ter participado – a partir do céu – na criação deste ícone, ainda que seja bastante claro que a inspiração provém de Nossa Santa Mãe, que em última instância é a responsável por sua criação. Ela é Rainha e pode encomendar um retrato ao seu artista preferido se assim quiser.

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Nossa Senhora de Czestochowa no mosteiro de Jasna Gora, na Polônia.

O autor inspirado do Evangelho segundo São Lucas e dos Atos dos Apóstolos pode ter começado algo muito maior que um simples retrato do ministério de Jesus e dos primeiros dias da Igreja cristã. Segundo tradições bem documentadas, ele foi autor de vários retratos e esculturas que representam Maria de Nazaré, incluindo aquela guardada em Extremadura e a pintura da Virgem de Czestochowa, conservada no mosteiro de Jasna Gora[17], entre várias outras atualmente dispersas por toda a Europa. O Evangelho de Lucas – muitas vezes chamado “o Evangelho de Maria” – foi enviado a um homem chamado Teófilo, nome que apropriadamente significa “amigo de Deus”[18] e talvez seja um sinal providencial de que a obra de Lucas era para todos os amigos de Deus através dos séculos. Isso pode ter sido o início de um ciclo ou Grande Parábola que procura preparar a Igreja para enfrentar futuros perigos. Certamente, uma coleção de eventos simbólicos, relíquias e escritos santos repartidos através de dois milênios de História deve animar os fiéis a confiar que Deus está no controle de todas as coisas, que Nosso Senhor é o Senhor da História. Ele pinta, por assim dizê-lo, a História da Salvação na tela do tempo e do espaço. Somente o Todo-Poderoso pode fazer tal coisa.

Mantendo isto em mente, devemos olhar para o conjunto de sinais apresentados pela Virgem de Guadalupe. No entanto, não limitaremos a nossa análise apenas à sagrada imagem. Vamos olhar também para as pessoas, datas, eventos e quaisquer outros elementos significativos relacionados com os sinais que a imagem contém. É uma coleção poderosa, preparada para ser pouco a pouco descoberta, com mensagens para cada geração. A partir de uma distância de cinco séculos, se prepare para ouvir a voz da Virgem que nos chama do Tepeyac.

O Alef de Maria

Estamos novamente diante da imagem, tentando pensar tal como os mexicanos do século XVI, os quais tinham sido submetidos pelos invasores estrangeiros. Sua cultura estava viva neles, mas os invasores não compreendiam seu rico patrimônio e o pouco que compreendiam desprezavam como superstição demoníaca. Maria de Nazaré veio salvar a raça mexicana e também ensinar uma lição de piedade aos seus filhos espanhóis. A partir da grande reserva da graça de Deus, Maria trouxe uma mensagem para chegar aos mexicanos em seus termos e símbolos, enquanto ocultava dos espanhóis aqueles elementos que ela iria tomar emprestados da cultura asteca para cativar os corações dos nativos.

Os soldados de Cortez tinham se horrorizado com os sacrifícios humanos, a homossexualidade ritual dos sacerdotes, os horrosos ídolos moldados a partir de uma pasta feita com milho e sangue humano, seu canibalismo ritual e suas impiedosas guerras floridas. Nossa Senhora tinha que encontrar um jeito de falar com ambas as culturas e uni-las. Nunca jamais um diplomata superará a habilidade de Maria em forjar uma nação cristã a partir de uma massa de pessoas tão heterogênea.

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Ícone da Virgem e do Menino, tradicionalmente atribuído a São Lucas. Observe-se as estrelas no manto da Virgem.

Os anjos são mensageiros de Deus. A palavra grega angelos (άγγελος, pronunciada an-gue-los) significa “mensageiro” em grego. A mitologia asteca não incluía anjos; é por isso que quando os nativos viram o anjo representado na tilma, pensaram que era Juan Diego. O anjo está “trazendo” Nossa Senhora em suas asas; o nome original de Juan Diego era “aquele que fala como águia”; era também mensageiro da Virgem, que trouxe “seu alento, suas palavras” aos mexicanos. As asas do anjo são pintadas em três cores: vermelha, branca e azul, associando-as na mente nativa a Tláloc, o deus da chuva e do trovão. A cor vermelha é associada normalmente com o fio do punhal de sacrifício feito de rocha obsidiana. Desta vez o punhal não está ali, foi substituído por penas inofensivas. O fim da era dos sacrifícios humanos, anunciado por Quetzalcóatl, a serpente emplumada, finalmente havia chegado.

O anjo é representado em movimento, está levando a Virgem numa determinada direção, da direita para a esquerda; as asas de águia levam a Rainha de uma idade que se apaga para uma nova era de luz. A face do anjo – assim como o rosto de Maria – encontra-se no lado esquerdo da costura. Para a imaginação nativa, as mãos da Virgem estão dando palminhas; seu joelho esquerdo está avançando na mesma direção. Ela está ingressando no “norte” da tilma – recordemos que os astecas representavam em seus mapas o leste na parte de cima; na parte de baixo, o oeste; o sul, na direita; e o norte, na esquerda. No México, o clima, o vento frio do inverno, tudo procede do quadrante norte. A aparição ocorreu no dia do solstício de inverno, no dia 13 (Acatl, junco) do 1º mês (Cuauhtli, águia) da 4ª Idade (Técpatl, faca de pedra), quando os dias começam a ser mais longos e o sol (Tonatiuh) renasce. Maria de Nazaré aparece-lhes como uma mensageira da vida, eis que está grávida, trazendo nela a promessa da primavera.

fb10O anjo está sustentando o manto (o céu) com sua mão esquerda e o vestido (a terra), com a direita. Seu manto está decorado com estrelas que simbolizam o céu. A capa de cor turquesa é a cor do passaro quetzal. Para os astecas, essa era a cor da touca e da capa de Moctezuma; a ninguém mais era permitido vestir essa cor, que simboliza a bênção da fertilidade trazida pelo sol e pela chuva. O significado do sinal é claro: a Perfeita Virgem Maria era agora sua imperatriz; ela era a força da vida e fecundidade. Ela era como Coatlicue Toniatzin, a Mãe do Sol, porém sem essas garras ameaçadoras; seus pés eram visíveis sob a borda da peça e estavam calçados com delicadas sapatilhas. Aqueles que viam Maria na imagem após ouvir a história de Juan Diego podiam entender que ela era uma mãe amorosa que trazia uma nova vida e uma nova era de paz.

A cor do manto de Nossa Senhora fazia recordar aos nativos a mais sagrada das aves, o quetzal. Suas penas de um verde exuberante eram símbolo dos bosques férteis do paraíso, “a terra das flores, a terra do grão abundante, dos prazeres carnais, o jardim da abundância, as regiões celestes” que Juan Diego menciona no Nican Mopohua.

Seu manto cobre o vestido de cor rosa. O tom rosado do vestido da Virgem simboliza a cor da terra; a seda bordada que cobre seu vestido é decorada com três tipos de flores; as flores maiores são chamadas tépetl[19], empregadas pelos escribas como um símbolo gráfico das montanhas ou colinas.

A segunda flor é a flor de Quetzalcóatl, uma flor de oito pétalas usada pelos escribas para simbolizar Vênus, a estrela da manhã. Na mitologia asteca, havia a crença de que Quetzalcóatl tinha se convertido, depois de sua morte, na estrela da manhã. Ele era o deus que tinha prometido retornar para reclamar seu trono e para pôr fim a todos os sacrifícios humanos.

A terceira flor é o sagrado Nahui Ollin e simboliza a união dos quatro elementos naturais: terra, vento, água e fogo, as quatro estações e também os quatro pontos cardeais. As quatro pétalas também representam as quatro idades que tinham passado, com seu centro que representa o 5º Sol, cuja chegada coincidia com o primeiro dia de inverno, o mesmo dia em que a Virgem produziu o milagre da tilma.

A cinta preta atada acima de seu ventre indica que ela está grávida, da mesma forma que Coatlicue; no entanto – diferentemente da deusa pagã – a cinta de Maria tem três cordões com seis pontas visíveis: isto sugere que se relacione com a Santíssima Trindade, como a filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho e esposa de Deus Espírito Santo. O preto é a cor de Quetzalcóatl, a quem às vezes se representa com uma formiga preta no nariz, simbolizando seu poder para transformar-se em uma formiga e assim descer despercebido às profundezas da terra, para dar vida nova aos mortos, oferecendo-lhes seu próprio sangue.

Nossa Senhora de Guadalupe se inclina ligeiramente em um gesto cheio de profunda misericórida. Os deuses nativos sempre olhavam para frente com olhos abertos, mas os meros mortais não podiam agir assim. Considerava-se má educação para qualquer pessoa, exceto para um sacerdote ou um homem da alta nobreza. A partir da tilma, a Perfeita Virgem Maria não olha imperiosamente para o seu povo, mas o olha com amor e compaixão. O rosto da Virgem é o de uma jovenzinha. Hoje seria considerado o de uma mestiça, metade índia, metade espanhola. Não havia muitas crianças mestiças em 1531. De certo modo, seu comportamento é um olhar profético para o futuro. Ela está anunciando o nascimento de uma nova raça.

 

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Seu cabelo está penteado como o de uma donzela; no entanto, ela está grávida. Os costumes astecas eram tais que se assumia que uma donzela devia ser também virgem – certamente esta não é sempre a situação em nosso século XXI – mas a Virgem havia dito a Juan Diego que ela era “a perfeita Virgem Santa Maria, Mãe de Deus”. Não há qualquer contradição entre sua virgindade e sua gravidez. Aqui está a genialidade do símbolo apresentado aos mexicanos: serve como uma maneira de introduzi-los ao Evangelho, usando símbolos de sua própria religião. Posso imaginar alguns dos nativos perguntando: “Como pode uma Virgem ser também mãe?” Para aqueles que já tinham o conceito da maternidade milagrosa de Coatlicue Toniatzin[20], não era muito difícil aceitar a virgindade perpétua de Maria e o dogma do nascimento virginal de Jesus.

Os cristãos veem a Virgem de Guadalupe e assumem imediatamente que suas mãos estão unidas em oração porque isso é o que fazem os cristãos. Os sinais que nos são apresentados mostram uma dualidade maravilhosa. Suas mãos nos recordam a “casinha”, a capela que quer ter na colina do Tepeyac. Uma igreja é, logicamente, uma casa de oração; ela também disse que queria essa capela para “dar ali o seu Filho” ao povo. Essa expressão é rica em significado: a Virgem quer dar ao povo seu Filho, o Deus da luz que está a ponto de nascer nesse solstício de inverno. A Eucaristia que ali se dará também é o Filho da Virgem dado aos fiéis como Pão do Céu.

Muitos dos indígenas, em particular os que já assistiam a Santa Missa, poderiam olhar para as mãos da Virgem e associá-las à oração. Para aqueles que não estavam muito familiarizados com os costumes cristãos, ela parecia estar batendo palmas, levantando o joelho esquerdo e modestamente olhando para baixo enquanto dançava. A sagrada imagem é engenhosamente elaborada para preparar o coração dos espectadores para a recepção das doutrinas cristãs.

Há uma aura de luz ao seu redor, que os nativos entendem perfeitamente: é natural que a Mãe do Sol irradie luz. Ela está grávida e está a ponto de dar a luz ao “Deus por quem se vive”. A posição da flor sagrada, o Nahui Ollin, justamente em seu seio reforça ainda mais a natureza divina que vive nela. Por fim, a Cruz que adorna seu pescoço, o único símbolo totalmente cristão em todo o amoxtli,
confirma-lhes que seu Filho é o Deus dos cristãos, que triunfou sobre os deuses sedentos de sangue dos sacerdotes astecas. Uma sombra na túnica mostra o crucificado: Ele é um Deus que se sacrificou para que seu povo pudesse viver. Ele não precisa que seu povo seja sacrificado por ele. O fim dos sacrifícios humanos chegou tempestivamente para a era do 5º Sol.

A imagem da Virgem de Guadalupe é uma parábola perfeita, que deixa os nativos prontos e desejosos de abraçar sua nova mãe. Com o tempo, isso se transformou em uma nova identidade nacional.

Traduzido por Carlos Martins Nabeto


NOTAS:
[1] Semiose (do grego σημείωσις, sēmeíōsis) é um processo que cria, atribui ou modifica sinais, é a geração de significado. Charles Sanders Peirce (1839-1914) o define como a interpretação de sinais em relação a objetos, sinais interrelacionados ou semiótica.
[2] João 19,26-27.
[3] Números 21,8-9.
[4] João 3,14.
[5] Concordância Exaustiva de Strong: serpente ardente, seraph, de Saraph; chama, fogo, isto é, em sentido figurado, uma serpente venenosa; especificamente, um Saraph ou criatura simbólica de cor de cobre, seraph. Curiosamente, a palavra hebraica שָׂרָף [Seraph] é a mesma para “serpente” e “fogo”.
[6] Tessalonicenses 5,20-21 – “Não desprezeis as profecias, examinai tudo; retém o bom, abstei-vos de toda forma de maldade”.
[7] 2Coríntios 5,21 – “Por nós [Deus] fez pecado a aquele que não conheceu pecado, para que nele recebêssemos a justiça de Deus”.
[8] “Um códice é um documento de tempo anterior à conquista ou do início do período colonial, composto por imagens, um amoxtli, pintado por indígenas tlacuilos, pintor-escriba, em uma tira longa de papel flexível feito de fibras de piteira ou de cortiça de figueira silvestre”. “The Sacred Image is a… Divine Codex”, artigo de Janet Barber, IHM, incluído em “A Handbook on Guadalupe”, publicado pelos Freis Franciscanos da Imaculada, New Bedford, Massachusetts, 1997. ©Academy of the Immaculate.
[9] Alef é a primeira letra do alfabeto hebraico. O pictograma original da letra era a cabeça idealizada de um boi que mais tarde se converteu em uma ferragem (a letra hebraica Lamed?) combinada com a cabeça de boi original para significar Deus, autoridade forte, o chefe de uma tribo. A forma moderna da letra hebraica א às vezes é comparada a um homem empunhando um arado. Misticamente se diz que representa um homem que aponta o céu com um braço e, com o outro, a terra, o que indica que a terra se destina a refletir o céu.
[10] Apocalipse 4,7 – “A primeira criatura vivente era como um leão; a segunda, como um touro; a terceira tinha o rosto como de um homem; e o quarto era como uma águia em voo”. Tradicionalmente se entende que estes quatro animais representam os quatro evangelistas, sendo que a “águia em voo” representa o Apóstolo São João.
[11] Mateus 4,13-17 – “[Jesus] subiu o monte e chamou aqueles que quis e vieram até ele. E estabeleceu doze apóstolos para que estivessem com ele e para enviá-los a anunciar o Evangelho e ter o poder de expulsar os demônios. Assim nomeou os doze: Simão, a quem chamou Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, o irmão de Tiago, a quem deu o nome de Boanerges, que significa ‘filhos do trovão’”.
[12] Miguel Mateo Maldonado y Cabrera (1695-1768).
[13] Permitiram que estudasse a imagem da Virgem de Guadalupe para que fizesse duas cópias: uma para o Arcebispo José Manuel Rubio y Salinas e outra para o Papa Bento XIV. Copiou uma terceira para ser empregada como modelo em futuras reproduções.
[14] Título original em español: “Maravilla Americana y Conjunto de Raras Maravillas, Observadas con la Dirección de Las reglas del Arte de la Pintura en la Prodigiosa Imagen de Nuestra Señora de Guadalupe de México”, de Miguel Mateo Maldonado y Cabrera. Imprensa Real do mais antigo Colégio de Santo Ildefonso, 1756.
[15] Guache, gouache: uma técnica de pintura com aquarelas opacas preparadas com goma-laca.
[16] “A Handbook on Guadalupe”, p.63, artigo “The Iconography of Guadalupe”, por Dom Columbano Hawkins, OCSO; publicado por Freis Franciscanos da Imaculada, New Bedford, Massachusetts, 1997. ©Academy of the Immaculate.
[17] Os documentos antigos afirmam que o ícone da Virgem de Czestochowa proveio de Constantinopla. Uma tradição declara que em 1384 o conde Wladyslaw Opolczyk viajava através de Czestochowa com o ícone quando seus cavalos se negaram a prosseguir (um evento similar ocorreu com os que levavam a imagem da Virgem de Luján, em 1630). Em um sonho, Wladyslaw foi instruído a deixar o ícone em Jasna Gora. O manto que cobre a Virgem de Czestochowa é decorado com flor de lis em um estilo semelhante ao da capa da Virgem de Guadalupe.
[18] Em grego Θεοφιλος, “amigo de Deus”. Veja-se Lucas 1,1-4. Os primeiros versículos do Evangelho, que podem ter inspirado a introdução do Nican Mopohua, são bem similares.
[19] Assim como em Popocatépetl, o famoso vulcão do México.
[20] Na mitologia asteca, Coatlicue foi sobrenaturalmente engravidada quando algumas penas nela tocaram enquanto varria seu templo. Esse mito explica assim a concepção do demônio Huitzilopochtli sem o auxílio de um pai.

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A Lua de Sangue na Sagrada Escritura e nas Aparições marianas

A “Lua de Sangue” na Sagrada Escritura e nas Aparições marianas, como sinal que precede a Segunda Vinda de Nosso Senhor

O Tetra Eclipse Lunar Total de 2014-2015

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Tetra Bíblico 2014-2015: “O Sinal Perfeito de Deus” (formato das datas mês/dia/ano) Ver último apartado deste artigo: “A Lua de Sangue”

Índice:

  1. O Projecto de Deus.
  2. O “Fim do Tempo” e a consumação do Projecto Divino.
  3. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas (Lc 21,25) antes de que chegue o Dia de Yahvé grande e terrível (Joel 3,4).
  1. Sentido teológico dos astros como reveladores do Projecto Divino do Criador.
  1. Relação do Povo de Israel com a Segunda Vinda de Cristo.
  2. A Lua de Sangue.

O projecto de Deus

No primeiro relato da Criação do livro do Génesis 1,1-2,4a, a acção criadora de Deus é nos apresentada num “crescendo” que culminará com a criação do homem à Sua imagem e semelhança.

Efectivamente, toda a criação está criada por Deus em função do homem. Assim o Catecismo da Igreja Católica, nº 358, que cita a São Pedro Crisólogo, Padre e Doutor da Igreja:

«Qual é, pois, o ser que vai chegar à existência rodeado de tal consideração? É o homem, grande e admirável figura vivente, mais precioso aos olhos de Deus que toda a criação; é o homem, para quem existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação, e a cuja salvação Deus deu tanta importância, que, por ele, nem ao seu próprio Filho poupou. Porque Deus não desiste de tudo realizar, para fazer subir o homem até Si e fazê-lo sentar à sua direita»[1].

Nesta mesma linha Joseph Ratzinger afirma que «o cosmos não foi [primariamente] criado para que houvesse uma massa de astros e tantas outras coisas mais, mas para que houvesse um espaço para a “aliança”, para o “sim” do amor entre Deus e o homem que Lhe responde»[2].

Ora, o homem —sabemo-lo pela Sagrada Escritura— foi infiel a esta “aliança da criação”, a qual é o fundamento de todos os desígnios salvíficos de Deus. A desobediência de Adão e Eva ao mandato divino (cf. Gn 3) atraiçoa o amor de Deus pelo homem, a quem criou à Sua imagem, e tem como consequência a perda da comunhão do homem com Deus. De aqui se segue naturalmente a perda da comunhão do homem com os seus semelhantes, e, por fim, a perda da comunhão com a criação da qual tinha sido erigido “senhor” por Deus mesmo (cf. Gn 1,28-30), a perda da comunhão do homem com esse cosmos que tinha sido criado como lugar da Aliança de Deus com os homens (cf. Gn 17).

Mas, apesar da infidelidade do homem, Deus não o abandonou. Como disse antes São Pedro Crisólogo: «Deus deu tanta importância salvação do homem, que, por ele, nem ao seu próprio Filho poupou. Porque Deus não desiste de tudo realizar, para fazer subir o homem até Si e fazê-lo sentar à sua direita»[3].

A reconciliação da humanidade com Deus, por meio do Seu Filho Eterno feito homem, Jesus Cristo, nosso Senhor, vem admiravelmente expressada por São Paulo, quando escreve aos Romanos:

«Deus demonstra o seu amor para connosco pelo facto de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores. […] Nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem desde agora recebemos a reconciliação. Com efeito, se pelo delito de um só homem [Adão] reinou a morte, com quanta mais razão os que recebem em abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Por conseguinte, assim como pelo delito de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens justificação que traz a vida. De modo que, como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só todos se tornarão justos.» (Rm 5, 8.11.17-20)

A reconciliação da humanidade com Deus, por meio de Jesus Cristo, trará como consequência todas as outras reconciliações: a reconciliação dos homens entre si, e do homem com a criação. Assim, São Paulo fala também da “redenção” da criação:

«Pois a criação espera ansiosa e deseja vivamente a revelação da nossa condição de filhos de Deus. De facto, a criação foi submetida à caducidade —não pelo seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu— na esperança de ela também ser liberada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até ao presente.» (Rm 8,19-22).

Vemos, pois, como a obra redentora de nosso Senhor Jesus Cristo terá a sua consumação também na inteira criação que o Pai criou para o Seu Filho Eterno (cf. Col 1,15-17), à imagem do Qual nós fomos criados (cf. Rom 5,14). Por Cristo somos filhos adoptivos de Deus (cf. Ef 1,4-5), e por isso herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rom 8,17) de toda a criação (cf. 1Cor 3,22-23).

Se cumprirão então as profecias feitas por Deus por meio do profeta Isaías:

«Em verdade, eis que criarei novos céus e uma nova terra; e todos os eventos passados não serão mais lembrados. Jamais virão à mente! Alegrai-vos, portanto, e regozijai-vos para todo o sempre com aquilo que estou prestes a criar: eis que criarei uma nova Jerusalém, e esta somente para júbilo, e seu povo para a felicidade.» (Is 65,17-18)

A Divina Promessa de um céu novo e uma nova terra vem recordada no último livro da Escritura, o qual nos revela (em geral todo o Novo Testamento) que a Promessa será realizada em Cristo a quando da sua Última Vinda. Assim relata São João esta visão no livro de Apocalipse:

«Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra haviam passado; e o mar já não mais existia. Vi também a Cidade Santa, a nova Jerusalém, que descia dos céus, de junto de Deus, adornada como uma linda noiva para o seu esposo amado. E ouvi uma voz potente que procedia do trono e declarava: “Esta é a Morada de Deus, que compartirá com os homens, com os quais Ele habitará. Eles serão o seu povo e o próprio Deus viverá com eles, e será o seu Deus. Ele lhes enxugará dos olhos toda a lágrima; não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porquanto a antiga ordem está encerrada!” E Aquele que está assentado no trono afirmou: “Eis que faço novas todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve isto, pois estas palavras são verdadeiras e absolutamente dignas de confiança”. E declarou-me ainda: “Tudo está realizado! Eu Sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim. A todos quantos tiverem sede lhes darei de beber graciosamente da fonte da Água da Vida. O vencedor herdará todas essas bênçãos, e Eu serei seu Deus e ele será meu filho.» (Ap 21, 1-7)

De facto, as últimas palavras do Filho de Deus na Sagrada Escritura são precisamente o aviso da Sua Vinda: «Sim. Venho muito em breve!» (Ap 22,20). E a estas palavras São João responde «Ámen! Vem, Senhor Jesus.»

É São Pedro quem nos exorta a esperar com ele na Promessa que Jesus fez à sua Igreja: «Nós, confiados na Sua Promessa, esperamos uns céus novos e uma nova terra, nos que habite a justiça.» (2Pe 3,13).

O Apocalipse, cujo nome não significa “fim do mundo” (que é o que pensa o imaginário do comum dos mortais), mas “Revelação”, vem revelar, precisamente, a consumação vitoriosa do plano de Deus: a união definitiva da humanidade redimida com o Redentor e Salvador, Cristo Jesus. Este é o núcleo essencial do último livro da Sagrada Escritura, no qual vem também descrito o processo histórico —agonizante— que conduzirá ao triunfo de Jesus, descrição que se dá ora segundo o recurso a uma linguagem simbólica, ora segundo o recurso a uma linguagem literal.

O “Fim do Tempo” e a consumação do Projecto Divino

O desenrolar do projecto divino de levar o homem e o universo (para ele criado) a gozar eternamente da Vida de Deus é condicionado (não determinado!) pela resposta que o homem ao longo da historia dá ao desígnio amoroso de Deus. Ora, Deus, na sua Omnisciência conhece perfeitamente as respostas particulares que cada homem concreto dá ao Seu projecto de amor, e de como elas vão levando a historia à sua inexorável consumação: a Vinda de Cristo, Rei do Universo, e a entrada da criação inteira no âmbito da vida divina.

Deus, que guia a historia do Universo ao seu cumprimento em Cristo Jesus, vai alentando a sua Igreja nesta peregrinação até ao Seu encontro, e lhe vai mostrando que tempo vive em cada momento da história. Se bem que é verdade, como Jesus ensina, que ninguém sabe o dia nem a hora da Vinda do Filho do homem (cf. Mt 24,36), também são verdade estas outras palavras do Filho de Deus:

«Portanto, aprendei com a parábola da figueira: quando os seus ramos se renovam e as suas folhas começam a brotar, sabeis que está próximo o verão. Da mesma forma também vós quando virdes todos esses acontecimentos, sabei que Ele [o Filho do Homem, que vem a instaurar o seu Reino][4] está muito próximo, às portas.» (Mt 24,32-33).

E, de facto, seja por meio de Jesus mesmo ou dos seus Apóstolos, na Sagrada Escritura foram deixados à Igreja de Deus os sinais que precedem a Segunda Vinda de Nosso Senhor.

Michael Schmaus, teólogo dogmático de renome, director da tese doutoral de Joseph Ratzinger, agrupa, na suaDogmática[5], os sinais que a Escritura anuncia como preludio da Segunda Vinda de Cristo:

«Ainda que a data da volta de Cristo é indefinida, deu-se-nos a conhecer os signos que a precederão. Estes são: a predicação do Evangelho a todo o mundo, a conversão do povo judio, penas e tribulações da Igreja, a aparição do Anticristo e o caos da criação.»

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas (Lc 21,25) antes de que chegue o Dia de Yahvé grande e terrivel (Joel 3,4)

O que no Novo Testamento vem entendido como a “Vinda de Nosso Senhor”, no Antigo Testamento é chamado “Dia de Yahvé”, o dia da justiça divina. Em ambos testamentos da Sagrada Escritura, os sinais no sol, na lua e nas estrelas vêm identificados como precursores do Dia de Yahvé, como precursores da Segunda Vinda de Jesus.

Por exemplo:

Isaías 13,9-13: «Eis o dia Yahvé, que vem implacável, e com ele o furor ardente da ira, reduzindo a terra a desolação e dela extirpando os pecadores. Com efeito, as estrelas do céu e Órion não darão a sua luz. O sol se escurecerá ao nascer, e a lua não dará a sua claridade. Punirei o mundo por causa da sua maldade e os ímpios por causa da sua iniquidade; porei fim à arrogância dos soberbos, humilharei a altivez dos tiranos. Farei com que os homens sejam mais raros que o ouro fino, os mortais mais raros que o ouro de Ofir. Por isso farei estremecer os céus, a terra tremerá sobre suas bases, em virtude do furor de Yahvé dos Exércitos, no dia em que arder a sua ira.»

Isaías 24,19-23: «A terra será toda arrasada, a terra será sacudida violentamente, a terra será fortemente abalada. […] o seu crime pesará sobre ela, ela cairá e não mais se levantará. E acontecerá naquele dia, que Yahvé visitará o exército do alto, no alto, e os reis da terra, na terra. Eles serão reunidos como bando de prisioneiros destinados à cova; serão encerrados no calabouço; depois de longo tempo, serão chamados a contas. A lua ficará confusa, o sol se cobrirá de vergonha, porque Yahvé dos Exércitos reina no monte Sião e em Jerusalém, e a Gloria resplandece diante dos anciãos.»

Em Ezequiel 32,7-8, Yahvé profetiza contra Egipto (símbolo do poder que oprime Israel): «Ao morreres, cobrirei os céus e escurecerei as suas estrelas, cobrirei o sol com as nuvens e a lua não dará a sua luz. Escurecerei todos os astros do céu por tua causa e espalharei as trevas sobre a tua terra, oráculo do Senhor Yahvé.»

Joel 2,1-2.10-11: «Tocai a trombeta em Sião, dai alarme na minha morada santa! Tremam todos os habitantes da terra, porque está a chegar o dia de Yahvé! Sim, está próximo um dia de trevas e escuridão, um dia de nuvens e de obscuridade! […] Diante dele a terra se comove, os céus tremem, o sol e a lua escurecem e as estrelas perdem o seu brilho! Yahvé levanta a sua voz diante do seu exército! Sim, o seu acampamento é muito grande, o executor da sua palavra é poderoso. Sim, o dia de Yahvé é grande, extremamente terrível! Quem poderá suportá-lo?»

Joel 3,1-5: «“Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciões terão sonhos, os vossos jovens terão visões. Até sobre os escravos e sobre as escravas naqueles dias, derramarei o meu Espírito. Porei sinais nos céus e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça”. O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o dia de Yahvé grande e terrível! Então, todo aquele que invocar o nome de Yahvé, será salvo.»

Amós 8,9-10: «Acontecerá naquele dia, —oráculo do Senhor Yahvé— que eu farei o sol declinar em pleno meio-dia e escurecerei a terra em um dia de luz.»

Salmo 104,19: «Ele fez a lua para marcar os tempos, o sol conhece o seu ocaso.»

Lucas 21,25-28 ( || Marcos 13,24-27 || Mateus 24,29-31): «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e na terra, as nações estarão em angustia, inquietas pelo bramido do mar e das ondas; os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que ameaçará o mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados. E então verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poder e grande gloria. Quando começarem a acontecer estas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação.»

Apocalipse 6,12: «Vi quando ele abriu o sexto selo: houve um grande terramoto; o sol tornou-se preto como um pano de crina, e a lua inteira como sangue; as estrelas do céu precipitaram-se sobre a terra, como a figueira que deixa cair os seus frutos ainda verdes ao ser agitada por um vento forte; o céu afastou-se como um livro que é enrolado; as montanhas todas e as ilhas foram removidas do seu lugar; os reis da terra, os magnatas, os capitães, os ricos e os poderosos, todos os escravos e os homens livres, esconderam-se nas cavernas e pelos rochedos das montanhas, dizendo aos montes e às pedras: “desmoronai sobre nós e escondei-nos da face daquele que está sentado no trono, e da ira do Cordeiro, pois chegou o Grande Dia da sua ira, e quem poderá ficar de pé?”»

Também a Santíssima Virgem nas suas aparições alertou para os sinais no sol, na lua e nas estrelas, recordando a iminência da Segunda Vinda do Seu Filho.

Assim em La Salette[6] (1846):

«As estações mudarão, a terra só dará maus frutos, os astros perderão os seus movimentos regulares, a Lua não projectará senão uma débil luz avermelhada. A água e o fogo darão ao globo terrestre movimentos convulsivos e horríveis tremores de terra que engolirão montanhas, cidades, etc..

Roma perderá a fé e se tornará sede do Anticristo.

Os demónios do ar, junto com o Anticristo, farão grandes prodígios na terra e nos ares. E os homens se perverterão cada vez mais.»

E nas aparições de El Escorial[7] (1981-2002), Nossa Senhora também insiste abundantemente:

«Será um tempo em que os filhos vão lutar contra os pais, as noras contra as sogras e irmãos contra irmãos. Morrerão muitos inocentes. Eu esperá-los-ei na Minha morada. As moradas estão preparadas para os escolhidos, mas os calabouços do Inferno também estão preparados. A luta vai parecer-vos muito longa e o Inimigo será, então, vencedor. Haverá três dias de escuridão; o Sol escurecerá e a Lua dará uma luz muito ténue. Os verdadeiros filhos de Deus continuarão a rezar, não se esquecendo de Deus. Esses dias serão terríveis! Será nesses momentos que se conhecerão os verdadeiros imitadores de Cristo. Não desembainheis a vossa espada. Lembrai-vos que foi dito: “Quem com ferros mata, com ferros morre”. O que Eu vos peço é oração, pois com a oração salvar-vos-eis.» (25.setembro.1981)

«Minha filha, repito-te como repeti a outras almas muitas vezes: sê humilde e segue o caminho que o Meu Filho te traçou. Todos os que percorrem o caminho para a luz têm de carregar a cruz e seguir o caminho do sofrimento. Mas os seres humanos não pensam em nada mais do que em divertir-se e cometer pecados. Diz a todos que se não mudarem e não pedirem perdão dos seus pecados nem se arrependerem, o Castigo está muito próximo. O toque das trombetas vai soar muito em breve e, nesse momento, a terra tremerá, o Sol girará sobre si com grandes explosões, a Lua escurecer-se-á e em todo o planeta terra ver-se-ão muitos fenómenos. Um astro iluminará a terra. Vai parecer que está envolta em chamas e isto vai durar vinte minutos. O pânico propagar-se-á por toda a parte. Todos os que acreditem em Deus e na Santíssima Virgem ficarão como em êxtase durante esses vinte minutos. Tudo isto está muito próximo, Minha filha.» (26.Fevreiro.1982)

«Os exércitos do Pai, formados por biliões e biliões [de Anjos], estão preparados. Basta o Pai mover o Seu braço para descerem à terra e separarem o joio do trigo, lançando o joio nas profundezas dos infernos e transportarem o trigo para os celeiros do Meu Filho. Por isso, diz a todos que estejam preparados para quando chegar esse momento. Dentro de pouco tempo, o Sol deixará de brilhar e a Lua deixará de alumiar.»  (7.Maio.1983)

«Está muito próximo o fim dos fins. Tomai atenção: haverá sinais na Lua, no Sol e nas estrelas. É muito importante que presteis atenção, porque é o fim dos fins, e o Meu Filho está a dar avisos para toda a Humanidade, mas os homens não fazem caso; não querem saber dos Meus avisos para nada. Pobres almas, Minha filha, pobres almas; que pena Me dão!» (24.setembro 1983)

«Eu disse-vos há uns dias para fixardes o vosso olhar nos astros e na Lua. Quando a lua começar a tornar-se avermelhada e os astros perderem o seu brilho natural, será espantoso. O Castigo será espantoso. Mas para as almas que cumpriram o Evangelho de Cristo, assim como os Dez Mandamentos…, será um paraíso eterno, Meus filhos! Um dos paraísos que o Pai preparou para vós.» (16.Junho.1984)

Nas revelações de Nosso Senhor a Anne[8] (EUA), em 2004 é nos dito:

«Filhos que estais no mundo, dirijo-me a vós com um aviso. Não desejo ver o vosso mundo gerar mais trevas. Estou a permitir que os Meus anjos golpeiem o Mundo, a fim de que as almas saiam das suas buscas mundanas e dirijam a atenção ao seu Deus. Quando uma alma se prepara para morrer, aquela alma não está preocupada com as coisas do mundo, mas considera as coisas do próximo mundo. O homem, porque foi enganado, não pensa nada sobre o próximo mundo. As almas que seguem este mundo concentram-se exclusivamente nelas, dando uma constante e total consideração a elas mesmas. Certamente, isto cessará quando o homem seja forçado a olhar para os céus, quando estes se tenham aberto lançando avisos e castigos. Meus Queridos, Eu não sou vingativo. Procuro apenas justiça e o fim das trevas. Fostes informados acerca das trevas que cobrirão a terra. Antes que chegue esse tempo tereis sinais na forma de transtornos no céu. A lua resplandecerá uma cor vermelha que será facilmente visível. Os homens procurarão explicar isto cientificamente. Sabereis que se trata de um sinal. Quando virdes isto, preparai-vos para o tempo das trevas, porque é iminente. Para que vos prepareis deveis permanecer recolhidos em oração.» (27.Maio.2004)

Sentido teológico dos astros como reveladores do Projecto Divino do Criador

De facto, Deus estabeleceu os céus com inteligência (Prov. 3,19; cf. Sal 136,5). Deus fez as estrelas em grande número, mas contado (cf. Sal 147,8). Os astros que Deus criou têm uma ordem de aparição estabelecida (cf. Is 40,26), cada estrela tem um resplendor diferente (cf. 1Cor 15,41), cada uma é distinta e, por isso, a cada uma Deus lhe dá um nome[9] (cf. Is 40,26, Sal 146,4).

«Deus disse: “Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais (heb: oth), tanto para as festas (heb: moed) quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra”, e assim se fez.» (Gn 1,14-15).

A finalidade que Deus atribuiu às estrelas (astros) é alumiar física e espiritualmente a terra. Assim, fisicamente, as estrelas servem para medir os tempos e as estações (calendário), o que permite ordenar a vida do homem. As estrelas, com os seus movimentos regulares, são um relógio cósmico de alta precisão.

A palavra hebraica moed (cf. Gn 1,14), significa “festa”, “solenidade”, e estas vêm determinadas pelos movimentos dos astros, más precisamente da lua. Assim em Lv 23,4: «Estas são as festas do Senhor, assembleias santas, que tu as convocarás nas datas estabelecidas». Assim, Deus estabeleceu para Israel, o seu povo escolhido, tempos especiais de festividades nos quais os israelitas haviam de regozijar-se. Tanto pela sua origem (a explícita vontade de Yahvé) como pelo seu propósito (render o culto agradável a Deus) e a maneira na que se deveriam celebrar, eram chamadas “assembleias sagradas” (heb: miqraéi qódesh) e eram também as “festas solenes do Senhor” (heb: moadéi Adonay).[10] Quanto às “festas solenes do Senhor” (heb: moadéi Adonay), aquele termo moed (“festa solene”, “solenidade”) leva implícita a ideia de “cumprir com um encontro sagrado”[11]. Por tanto, Deus associou os movimentos dos astros com a vida do homem, com os tempos do homem que vive na historia, e, em particular, são os movimentos dos astros os que determinam os momentos dos próprios “encontros sagrados”.

Por outro lado os astros do céu vão indicando ao homem sábio, os tempos que Deus dispôs, no cumprimento do seu plano divino. Assim, por exemplo, foi como os sábios Reis Magos souberam do nascimento do verdadeiro Rei de reis, Jesus Cristo: “vimos sair a sua estrela e viemos adorá-lo” (Mt 2,2).

A perfeição do universo criado vai impregnada da inteligência genial de Deus que dispôs nos movimentos dos astros a narrativa do plano divino de salvação: eis a iluminação espiritual dos astros pensada pelo Criador. De facto, na sua infinita genialidade, Deus omnipotente e omnisciente —porque é conhecedor do passado, presente e futuro, porque penetra as entranhas do coração do homem e conhece a resposta dele ao Seu plano divino, porque conhece a leis dos céus e determina o seu mapa na terra (cf. Jb 38,33)— associou os movimentos dos astros à própria resposta que os homens dão ao plano divino.

Assim, quando chegou a plenitude dos tempos (cf. Ga 4,4) aquela estrela guiou os Reis Magos ao verdadeiromoad, ao verdadeiro “encontro sagrado” com o Deus nascido da Virgem Maria. Os Magos de Oriente não pertenciam ao povo de Israel, e por isso não tinham (provavelmente) o conhecimento da revelação sobrenatural que Israel teve por meio dos profetas; não obstante, reconheceram nos céus o sinal divino que Deus omnisciente ali preestabeleceu. A estrela do firmamento parou-se onde estava o Deus-menino, deteve-se sobre Belém. E Belém era a cidade profetizada pelo profeta Miqueias como o lugar donde havia de nascer o Cristo (cf. Mt 2,4-6; Mi 5,1-3). Ora, de facto, porque um e o mesmo é o Criador e o Revelador, não pode haver contradição entre a noticia que procede da revelação natural e a noticia que procede da revelação sobrenatural.

A Sagrada Escritura, em Gn 1,15, é explícita e diz que as estrelas foram criadas como signos (cf. Jb 38,31-33). Um signo é uma figura convencional que tem associado um significado ou mensagem; neste caso, as constelações, as estrelas, os planetas, o sol e a lua têm associado um significado ou mensagem, tal como aquele astro que guiou os Reis Magos até ao lugar onde nasceu o Deus-Menino. O conjunto de todas as mensagens é que os céus proclamam a gloria de Deus, como canta o Salmo 19:

«Os céus contam a glória de Deus,
e o firmamento proclama a obra das suas mãos.
O dia passa a mensagem a outro dia,
e a noite à outra noite a sussurra,
sem que falem, sem que se lhes oiça,
sem que ressoe a sua voz,
a sua linguagem alcança toda a Terra,
até aos confins do mundo as suas palavras.» (Sal 19,1-4)

Ora, como ensina São Ireneo de Lyon «a gloria de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus»[12]. Portanto, como demonstrámos, faz todo o sentido que os céus vaiam anunciando os momentos concretos de salvação —“kairos”— que nos aproximam cada vez mais da consumação definitiva do Divino projecto da salvação.

Relação do Povo de Israel com a Segunda Vinda de Cristo

O povo judeu, apesar da sua infidelidade (cf. Rom 10), continua a ser herdeiro das promessas, como recorda São Paulo (cf. Rom 11). E vimos que a promessa que Cristo —o Filho de Deus enviado ao seu povo, e que o seu povo, de facto, não reconheceu (cf. Jo 1,11)— de voltar para libertar definitivamente o homem, se identifica com aquela que é feita ao povo de Israel, que espera o Dia Yahvé, o dia da vinda do Messias que libertará a Israel dos seus inimigos (como mostram as citações bíblicas anteriores). Assim São Paulo aos Romanos:

«Não quero, irmão, que ignoreis este mistério, para que não presumais de sábios: o endurecimento parcial que padeceu Israel durará até que entrem todos os gentios. Desse modo todo o Israel se salvará, como diz a Escritura: De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacob, e esta será a minha aliança com eles, quando eu perdoe os seus pecados». Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à Eleição, eles são amados, por causa dos seus pais. Porque os dons e a chamada de Deus são irrevocáveis.»

Com efeito, já dissemos que outro dos sinais que precede a Segunda Vinda de Nossa Senhor Jesus Cristo é a conversão do povo de Israel. Assim São João Damasceno, Bispo e Doutor da Igreja, na sua Expositio Fidei IV, 26:

«Além disso, serão enviados Enoch e Elias o tesbita, e dirigirão os corações dos pais aos filhos (Ml 4,6). Isto quer dizer que a Sinagoga voltará a nosso Senhor Jesus Cristo e à predicação dos Apóstolos. Mas serão mortos por ele [o Anticristo]. Então o Senhor virá do céu do mesmo modo como o Apóstolos o viram subir ao céu: perfeito Deus e perfeito homem com gloria e poder. Com o Espírito da sua boca destruirá ao homem de iniquidade, o filho da perdição. Por isso que ninguém espere que o Senhor venha da terra, mas do céu, como ele mesmo assegurou.»

A vinda de Elias e Enoch vem profetizada na Sagrada Escritura no capítulo 11 do Livro do Apocalipse quando fala das “duas testemunhas”. Como Santo Tomás de Aquino recorda, a Sagrada Tradição (como acabamos de ver, por exemplo, com São João Damasceno) identificou as “duas testemunhas” com Elias e Enoch:

«Elias foi arrebatado ao céu aéreo não ao céu empíreo, que é o lugar dos bem-aventurados. O mesmo se deu com Enoch; foi arrebatado ao paraíso terrestre, onde cremos que vive junto com Elias até o advento do Anticristo.» (São Tomás de Aquino, Summa Theologie III, q. 49, a. 5, ad 2)

Também a Santíssima Virgem nas suas aparições, nas que procura incessantemente  conduzir os homens a Cristo, seu Filho, nos adverte que o tempo da vinda de Elias e Enoch está próximo. Nas sua aparição de La Salette (1846):

«A Igreja será eclipsada, o mundo estará na consternação. Mas aí estarão Enoch e Elias, cheios do Espírito de Deus. Eles pregarão com a força de Deus, e os homens de boa vontade acreditarão em Deus e muitas almas serão consoladas. Eles farão grandes progressos, pela força do Espírito Santo, e condenarão os erros diabólicos do Anticristo.»

E passados 135 anos, nas aparições de El Escorial (1981-2002), Nossa Senhora diz que Elias e Enoch estão prontos para missão que Deus lhes confiou.

«A quarta morada está preparada para a luta. Nesses momentos Elias e Enoch estarão presentes e farão grandes prodígios, para que os inimigos do Meu Filho se arrependam e voltem para Deus. […] Eu lanço-vos um apelo, Meus filhos, tomai a cruz e segui o Meu Filho, que está muito cansado; ajudai-O a encontrar alívio para a Sua Cruz. Sede constantes na oração e fazei sacrifícios. Elias e Enoch, testemunhos de Jesus, serão de grande eficácia para a conversão da Humanidade. Serão mortos, mas depois das suas mortes haverá um grande milagre, como está escrito: quem tiver olhos que veja e quem tiver ouvidos que oiça. Quem tiver sede que acorra ao Meu Filho, que Ele é a Fonte da Vida. Quem estiver sobrecarregado que acorra ao Meu Filho, que Ele o aliviará. Vinde ao Meu Filho, que Ele vos levará à morada da vida. Nessa morada está escrito: “Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue será salvo.» (25 de Setembro de 1981).

A Lua de Sangue

Aquela estrela que guiou os Reis Magos até Belém anunciou a Primeira Vinda do Filho de Deus ao mundo para redimir o homem escravizado pelo pecado e pelo senhor do pecado que é Satanás. Esta primeira vinda de Nosso Senhor foi uma vinda em condição de escravo, humilhada, como nos recorda o hino de Filipenses (cf. Fil 2,5-8), como esteve profetizada por Deus mesmo, por meio do profeta Isaías (cf. Is 42,1-9. 49,1-8. 50,4-11. 52,13-53,12).

Ora, um dos sinais que aparecerão no céu como preludio da Segunda Vinda de Nosso Senhor, uma Vinda em poder, em justiça, em majestade, como já vimos anteriormente (cf. Is 11.24-27; Ez 38-39; Za 8-14; Mc 13; Mt 24-25; Lc 21,5-26; 1Tes 2,19. 4,13-5,11. 5,23-24; 2Tes 2; 2Pe 3,1-13; Ap. 19,11-16), é o sinal da lua vermelha, biblicamente chamada “Lua de Sangue” (cf. Jl 3,4; Ap 6,12).

Já vimos como, na sua infinita genialidade, Deus omnipotente e omnisciente —porque é conhecedor do passado, presente e futuro, porque penetra as entranhas do coração do homem e conhece a sua resposta ao Seu plano divino, porque conhece a leis dos céus e determina o seu mapa na terra (cf. Jb 38,33)— associou os movimentos dos astros à própria resposta que os homens dão ao plano divino.

Assim, por tanto, o fenómeno natural que faz com que a lua adquira a cor vermelha —eis a Lua de Sangue— é o eclipse lunar total. A luz solar, ao passar pela atmosfera terrestre, é refractada no espectro do vermelho, e é esta luz vermelha que ilumina a lua quando esta passa pela sombra da terra. É o mesmo fenómeno que ocorre na aurora e no ocaso, nos quais o céu adquire tons laranjas-avermelhados.

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Esquema deo Eclipse Luna (Total)

A NASA calculou todos os eclipses solares e lunares (parciais e totais) compreendidos entre os anos 1999 a.C. e 3000 d.C. e elaborou uma tabela donde figuram os dados destes 5000 anos de eclipses lunares. Eis o link: http://eclipse.gsfc.nasa.gov/LEcat5/LEcatalog.html.

Durante estes 5000 anos se darão 12064 eclipses lunares parciais, penumbrais e totais, indistintamente. Destes, 3479 são eclipses totais (28.8%). Durante os cinco milénios acorrerão 142 Tetras Lunares. O Tetra lunar consiste em quatro eclipses totais da lua seguidos, é dizer, sem serem intervalados por eclipses lunares parciais. Dos 142 Tetras, 62 ocorrerão entre o ano 1 d.C. e o ano 2100 d.C. Destes 62 Tetras, 8 ocorrem em Festas Bíblicas do povo judeu: a Festa da Páscoa e a Festa dos Tabernáculos: são chamados, por esta razão, Tetras Bíblicos. A Festa da Páscoa (Pasja) celebra a libertação do Povo de Israel da escravidão de Egipto (cf. Ex 12-15), que Deus obrou de modo sobrenatural, “com mão forte e braço estendido” (cf. Sal 136,12); desde as pragas que Deus lançou sobre Egipto (cf. Ex 7,8-11,10), passando pelo Anjo Exterminador que matou a todos os primogénitos, até ao Mar Vermelho aberto em dois para permitir o aceso do Povo Escolhido até à Terra Prometida, tendo ficado sepultados nas aguas o Faraó com todo o seu exército (cf. Ex 14,15-31; Sal 136,15). A Festa dos Tabernáculos (Sukot) ou das Tendas, está ligada à memoria que Israel faz dos duros dias do Êxodo e da peregrinação no deserto do Sinai. Recordam ao povo que um dia foram pobres, para que na abundância não se esqueçam de Deus, fonte de toda prosperidade, e negligenciem os seus preceitos. De aqui que a Festa dos Tabernáculos tem também que ver com a providencia de Yahvé pelo seu povo, com a bênção da terra.

Temos assim as Luas de Sangue profetizadas pelos profetas do Antigo Testamento, anunciadas pelo mesmo Jesus Cristo, e voltadas a recordar no livro do Apocalipse como preludio da Vinda Gloriosa do Nosso Deus e Senhor, a marcarem a sua presença nas moadéi Adonai (“Festas do Senhor”), recordando que a Divina Promessa, de Jesus Cristo, o Filho do Altíssimo, está a ponto de cumprir-se: «Sim, venho muito em breve!» (Ap 22,20).

O oitavo Tetra Bíblico decorre entre os anos 2014 e 2015, e até aos anos 2582-83, isto é, até de aqui a 567 anos, não haverá outro Tetra Bíblico. Este oitavo Tetra Bíblico (cf. Gráfico 8A), cujo 4º e último eclipse lunar total deste Tetra se dará no dia 28 de Setembro de 2015, apresenta uma configuração de todo peculiar, respeito dos outros sete Tetras Bíblicos: uma simetria perfeita, inigualável. É o signo perfeito de Deus, o sinal de que a hora chegou!! Isto não significa que Jesus Cristo volte para instaurar o seu Reino (cf. Ap 20,1-6) durante o tempo do Tetra, ou no último eclipse do Tetra. Não! Mas, sem dúvida, sim indica aquilo que Jesus diz: «Quando começarem a acontecer estas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação.» (Lc 21,28).

Não deixa de ser iluminador verificar como o Gráfico 6 e o Gráfico 7, correspondentes respectivamente ao 6º e 7º Tetra Bíblico, representam acontecimentos de grande importância para o povo de Israel, que nunca deixou de ser herdeiro da Divina Promessa como mostramos ao falar de Rom 11. Durante o 6º Tetra, Israel é declarada nação pela primeira vez em 2000 anos. Durante o 7º Tetra, Jerusalém volta a ser a capital de Israel e o Monte do Templo volta a ser possuído por Israel ao fim de 2000 anos.

Aqui os gráficos dos 8 Tetras Bíblicos desde o Nascimento Cristo.

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Notas

[1] São Pedro Crisólogo, Sermões 117 1-2: CCL 24A, 709 (PL 52, 520)

[2] Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaret. Desde la entrada en Jerusalén hasta la Resurrección. Encuentro, 20113, p. 97.

[3] São Pedro Crisólogo, Sermões 117 1-2: CCL 24A, 709 (PL 52, 520)

[4] Nota da Bíblia de Jerusalém a Mt 24,33.

[5] Michael Schmaus, Dogmática. VII Escatologia. Rialp, Madrid 1962, p. 168.

[6] El 19 de septiembre de 1851, Mons. Filiberto de Bruillard, Obispo de Grenoble, publica finalmente su “carta pastoral“. He aquí el párrafo esencial:

«Juzgamos que la aparición de la Santísima Virgen a dos pastores, el 19 de septiembre de 1846, en una montaña de la cadena de los Alpes, situada en la parroquia de La Salette, del arciprestazgo de Corps, contiene en sí todas las características de la verdad, y que los fieles tienen fundamento para creerla indudable y cierta

No Apelos de Nossa Senhora: http://apelosdenossasenhora.blogspot.pt/search/label/1846%20–%20Nossa%20Senhora%20de%20La%20Salette%20%28França%29.

[7] Los más de 376 mensajes de la Santísima Virgen siguen en estudio por parte de la comisión de teólogos nombrada por parte del Arzobispo de la diócesis madrileña, el entonces D. Antonio María Rouco Varela. No obstante, desde el año 2012 está permitido, por parte de la misma autoridad eclesiástica, el Culto Eucarístico permanente y autorizada la construcción de la capilla que la Virgen María pidió en Su primera aparición (14 de junio de 1981), con el fin de que se viniera de todo el mundo a meditar en la Pasión de Su Hijo, que está muy olvidada.

No Apelos de Nossa Senhora: http://apelosdenossasenhora.blogspot.it/2014/09/nossasenhora-de-el-escorial-espanha.html.

[8] Nota del Obispo de Kilmore, Leo O’Reilly:

«To Whom It May Concern: I hereby grant an Imprimatur for the books of Anne, a lay apostle, listed below which received the Nihil Obstat of Censor Deputatus Very Rev. John Canon Murphy, PP, VF, Bailieborough. [en la nota viene discriminada la lista de los libros] Given at Cullies, Cavan on 12thNovember 2013. Leo O’Reilly, Bishop of Kilmore.»

No Apelos de Nossa Senhora: http://apelosdenossasenhora.blogspot.pt/2014/11/jesus-anne.html.

[9] Sabemos que na Sagrada Escritura o nome vai associado à missão que vem por Deus confiada. Assim Kefas, o nome que Jesus dá a Simão, significa “pedra”: Eva significa “mãe dos viventes”; Abraão, “pai de muitas nações”; Jesus, “Salvador”; Daniel, “justiça de Deus”; Gabriel, “mensageiro de Deus”, etc… Também as estrelas tem a sua missão.

[10] De facto, é Deus mesmo que organiza o calendário do seu povo: cf. Ex 12,2; Lv 23,1-5.

[11] Outras acepções bastante relacionadas com esta ideia central aparecem no Diccionario de Hebreo Bíblico[11]: “lugar acordado de reunião” (cf. Jos 8,14), “tempo fixado” (cf. Ex 9,5), “prazo” (cf. Dn 12,7), “acordo” (cf. Jz 20,38), “assembleia” (Is 14,13).

[12] Adversus Haereses IV, 20, 7

Publicado por Joao Pedro BM

Etiquetas: Tetra Eclipse Lunar Bíblico 2014-2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nossa missão

endcrossApresentamos este Site de apologética e temas católicos de interesse geral feito por leigos fiéis ao ensino magisterial da Igreja Católica e à Cátedra de Pedro. Nossa missão é apresentar leituras e recursos audiovisuais que auxiliem o católico de fala portuguesa a formar-se na fé e defesa da doutrina apostólica.

Neste esforço coletivo, nossa comunidade não se esquece daqueles que receberam o chamado e seguem no processo de discernir seu ingresso na Igreja Católica. Esperamos que as muitas histórias de conversões, vidas exemplares e o exemplo dos santos de todos os tempos impulsionem a muitos a procurar Cristo na Igreja que Ele fundou.
Em sua encíclica “Redemptoris Missio”, João Paulo II resumiu perfeitamente a tarefa que é colocada diante de nós:

Povos todos, abri as portas a Cristo! O Seu Evangelho não tira nada à liberdade do homem, ao devido respeito pelas culturas, a tudo quanto de bom possui cada religião. Acolhendo Cristo, abris-vos à Palavra definitiva de Deus, Àquele no qual Deus se deu a conhecer plenamente e nos indicou o caminho para chegar a Ele.
O número daqueles que ignoram Cristo, e não fazem parte da Igreja está em contínuo aumento; mais ainda: quase duplicou desde o final do Concílio. A favor desta imensa humanidade, amada pelo Pai a ponto de lhe enviar o Seu Filho, é evidente a urgência da missão.

Por outro lado, a época que vivemos oferece, neste campo, novas oportunidades à Igreja: a queda de ideologias e sistemas políticos opressivos; o aparecimento de um mundo mais unido, graças ao incremento das comunicações; a afirmação, cada vez mais frequente entre os povos, daqueles valores evangélicos que Jesus encarnou na sua vida: paz, justiça, fraternidade, dedicação aos mais pequenos; um tipo de desenvolvimento económico e técnico sem alma, que, em contrapartida, está a criar necessidade da verdade sobre Deus, o homem e o significado da vida.

Deus abre à Igreja os horizontes de uma humanidade mais preparada para a sementeira evangélica. Sinto chegado o momento de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na missão ad gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição da Igreja pode se esquivar deste dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos” (Redemptoris Missio 3).

A urgência desta chamada não pode ser minimizada. O cristão de hoje é chamado a agir tal como o fizeram os cristãos dos primeiros séculos. Cabe a nós, mais uma vez, ser o sal da terra e conceder vida, mediante o Evangelho, a um mundo agonizante e a uma cultura que perdeu o rumo e se aproxima perigosamente do abismo da extinção.

Nosso esforço deve seguir o exemplo perfeito de Maria, que no século I foi a “primeira luz” do Evangelho, que iluminou a noite escura daquele antigo mundo em decadência: o mundo pagão.Não há tempo a perder!

Tempo sem Lei

Mark Mallett

Há alguns dias, um leitor norte-americano me escreveu, logo após a decisão da Suprema Corte de seu país ter inventado o direito ao “matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo: “Estive chorando quase todo o dia (…) Enquanto tento dormir um pouco, me pergunto se você poderia me ajudar a compreender para onde estamos indo na corrente dos eventos que surgem”.

Vários pensamentos me vieram à mente no silêncio da semana que passou; são, em parte, uma resposta a essa consulta.

A visão

– “Escreve a visão e dispõe claramente nas tabuinhas, para que possa ser lida de pronto, pois a visão se concretizará no tempo assinalado; caminha para o seu cumprimento e não deixará de se cumprir. Ainda que pareça tardar, aguarda por ela, porque indubitavelmente ocorrerá” (Habacuque 2,2-3).

Há duas coisas que guiam e informam este Apostolado e que vale a pena sublinhar mais uma vez: a primeira é essa luz interior que o Senhor me deu para compreender que a Igreja e o mundo estão ingressando na Grande Tempestade (que é uma espécie de furacão); a segunda e mais importante premissa, no entanto, é filtrar absolutamente tudo através da autoridade magisterial e da memória da Igreja, preservada na Sagrada Tradição, tentando responder fielmente à diretiva de João Paulo II:

– “Os numerosos encontros jubilares têm reunido os mais diversos tipos de pessoas, percebendo-se uma participação realmente impressionante, que às vezes tem colocado à prova o esforço dos organizadores e animadores, tanto eclesiais quanto civis. Desejo aproveitar esta carta para expressar a todos eles o meu mais cordial agradecimento. Porém, além do número de assistentes, o que tantas vezes me deixou comovido foi constatar o sério esforço de oração, de reflexão e de comunhão que estes encontros têm manifestado. Com relação a isto, acho que a ‘metáfora da tempestade’ enquadra-se perfeitamente ao conceito de ‘Dia do Senhor’ tida pelos Padres da Igreja primitiva e que ocorrerá durante e após a Tempestade”[1].

O panorama

O que é exatamente essa “Tempestade”? Levando em consideração as Escrituras, a visão dos Padres da Igreja, as aparições aprovadas da Santíssima Virgem, as profecias de santos como Faustina[2] e a Beata Catarina Emmerich, as inequívocas advertências papais, os ensinamentos do Catecismo e os “sinais dos tempos”, a Tempestade essencialmente nos faz ingressar no dia do Senhor. Segundo os primeiros Padres da Igreja, este não é o fim do mundo, mas um período específico prévio que nos conduz ao fim dos tempos e ao glorioso regresso de Jesus[3]. Esse tempo – nos ensinam os Padres – se encontra na visão de São João, que escreveu que depois do reino do Anticristo (a Besta) haveria um período de paz, simbolizado pelos “mil anos”, o “milênio” no qual a Igreja reinará juntamente com Cristo através do mundo (ver Apocalipse 20,1-4)[4].

– “Este nosso dia, que está marcado pelo nascer e pôr do sol, é a representação do grande dia que fixa os limites do ciclo de mil anos”[5]. E também, – “Vede que o Dia do Senhor será como mil anos”[6].

Os “mil anos”, no entanto, não devem ser entendidos literalmente mas de maneira figurada, como se se referissem a um período de tempo bastante longo[7], no qual Cristo reinará espiritualmente sobre todas as nações através da sua Igreja; e depois disto “virá o fim”[8].

A razão pela qual aponto isto é porque, segundo São João e os Padres da Igreja, o surgimento do “Audacioso” ou “Besta” ocorre antes do triunfo da Igreja — e que precede ao “tempo do reino” ou aquilo a que os patrísticos se referem como “o descanso sabático” da Igreja:

– “Porém quando o Anticristo tiver devastado tudo o que há no mundo, reinará por três anos e seis meses e se sentará no templo de Jerusalém; e então o Senhor virá com as nuvens do céu, lançando esse homem e aqueles que o seguem no lago de fogo, porém trazendo para os justos os tempos do reino, ou seja, o descanso, o sétimo dia santo. Isto deve suceder nos tempos do reino, isto é, no sétimo dia, o verdadeiro sábado dos justos”[9].

Isso quer dizer que teremos que passar pelo pior para chegar ao melhor. Como escreveu um dos autores favoritos de Santa Teresinha de Lisieux:

– “O ponto de vista mais autorizado, o que parece estar mais em harmonia com as Sagradas Escrituras, estipula que, depois da queda do Anticristo, a Igreja Católica entrará novamente em um período de prosperidade e triunfo”[10].

Em relação a isto, quero expressar qual é uma das senhas mais significativas do Anticristo, que parece estar revelando-se nestas horas.

A hora sem lei

Volto a contar, para meus leitores novos, uma experiência impagável que tive em 2005 e que um bispo canadense me pediu para pôr por escrito: eu ia dirigindo sozinho pela Columbia Britânica, no Canadá; estava a caminho do meu próximo concerto, desfrutando da paisagem e deixando fluir os meus pensamentos, quando, de repente, escutei no meu coração as palavras: “Tirei a restrição.”

Senti algo em meu espírito, algo difícil de explicar. Foi como se a força de um golpe atravessasse a terra; como se algo tivesse sido libertado no mundo espiritual[11].Nessa noite, no quarto do motel, perguntei ao Senhor se o que eu havia escutado estava nas Escrituras, já que a palavra “restrição” não me parecia familiar. Peguei a Bíblia e a abri diretamente em 2Tessalonicenses 2,3 e comecei a ler:- “Vos rogamos, irmãos, que não sejais sacudidos facilmente no vosso modo de pensar, nem vos alarmeis, nem por espírito, nem por palavra, nem por carta como se fosse nossa, no sentido de que o Dia do Senhor chegou. Que ninguém vos engane de maneira nenhuma, porque não virá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição…”São Paulo nos advertiu que o “Dia do Senhor” seria precedido por uma rebelião e a revelação do Anticristo; em uma palavra: audácia.

– “…antes da chegada do Senhor, chegará a apostasia e alguém aptamente descrito como ‘o homem sem lei’: ‘o filho da perdição’ deve ser revelado, a quem a tradição chama de ‘o Anticristo’“[12].

Porém, há algo que “restringe” a chegada deste Anticristo. Nessa noite, com a boca aberta, assombrado, prossegui lendo:

– “Vós sabeis o que o detém por ora, para que seja revelado no seu devido tempo. Porque o mistério da iniquidade já está em ação, só que aquele que por ora o detém, o fará até que ele mesmo seja tirado do meio. Então será revelado esse audacioso…”.

Quando pensamos na audácia, imaginamos quadrilhas percorrendo as ruas, ausência de polícía, crime por todas as partes etc. Porém, como podemos ver pelo passado, as formas mais insidiosas e perigosas de audácia vêm na forma de revoluções: a Revolução Francesa foi alimentada pelas massas dispostas a destronar a Igreja e a monarquia; o Comunismo nasceu quando o povo se levantou em Moscou durante a Revolução de Outubro; o Nazismo foi democraticamente eleito pelo voto popular; e, hoje, agindo paralelamente aos governos democraticamente eleitos, em conspiração com os operadores políticos, encontramos a força que impulsiona a presente Revolução Global: o ativismo judiciário, pelo qual as Cortes de Justiça simplesmente inventam leis como resultado da “interpretação” das Constituições ou Declarações de Direitos. Tudo isto para dizer que houve um aparecimento progressivo da audácia, que na verdade mina o fundamento das liberdades enquanto pretende defendê-las[13].- “Quando a própria cultura é corrupta e não se sustentam nem a verdade objetiva nem os princípios universalmente válidos, então as leis somente podem ser vistas como imposições arbitrárias ou obstáculos que devem ser evitados”[14].Acrescenta o Papa Francisco:

– “É por isso que a falta de respeito pela lei está se tornando mais comum”[15].

No entanto, tal como outros Papas advertiram, este foi o constante objetivo daqueles que trabalham contra a ordem atual[16].

Neste período, portanto, os partidários da iniquidade parecem estar aliando-se. Já não mantêm seus propósitos em segredo; estão se levantando atrevidamente contra o próprio Deus naquilo que é Seu propósito último; já está à vista, a saber: depor totalmente toda ordem política e religiosa mundial (que os ensinamentos cristãos têm produzido), o que deve ser sustituído por um novo estado de coisas conforme às suas ideias, cujos fundamentos e leis serão tomados do mero naturalismo (ver “Humanun Genus”, encíclica sobre a Maçonaria, nº 10, pelo Papa Leão XIII, de 20 de abril de 1884).

A Besta devora a liberdade

Irmãos e irmãs: afirmo isto para adverti-los que se guardem daqueles católicos bem-intencionados que insistem em afirmar que não podemos estar, de maneira nenhuma, nos aproximando do tempo do Anticristo. E a razão de sua insistência é esta: eles se têm limitado a uma teologia escolástica e uma exegese bíblica que não levam em conta todo o espectro dos escritos patrísticos, a teologia mística e a totalidade do ensinamento católico. E assim resulta que declarações magisteriais, como a que se segue, são convenientemente ignoradas:

– “Quem pode ignorar que a sociedade deste tempo, mais que em qualquer época anterior, sofre de um terrível e profundo mal, que aumenta dia após dia e consome o mais íntimo do seu ser, arrastando-a para sua destruição? Vós entendeis, veneráveis irmãos, o que é esta doença — a apostasia contra Deus. Quando se considera tudo isto, há boa razão para sentir temor. Não chegue a ocorrer que esta grande perversidade seja, por ventura, uma amostra e, talvez, o começo desses males que estão reservados para os últimos dias; e que já esteja presente no mundo o ‘Filho da Perdição’, de quem fala o Apóstolo”[17].

No entanto, um exame cuidadoso de nossos tempos revela a presença, neste momento, de todos os sinais que precedem e acompanham o “audacioso”.

I. Audácia e apostasia

Como disse anteriormente, a audácia está surgindo por todos os lados, não apenas na subversão da lei moral natural como também no que o Papa Francisco chama de crescente “atmosfera de guerra”[18], divisões na cultura e na família, e crises de índole econômica.

Porém, a palavra que São Paulo emprega para descrever a audácia é “apostasia”, que significa especificamente uma rebelião contra a Fé Católica, um rejeição dessa Fé. A raiz desta rebelião é o compromisso com o espírito deste mundo.

– “Nunca houve tal abandono da Fé Cristã quanto a que houve no século passado. Esta geração é certamente uma ‘candidata’ para a Grande Apostasia”[19].- “O amor ao mundo é a raiz de todos os males e nos pode levar a abandonar nossas tradições e a negociar nossa lealdade a Deus, que sempre é fiel. Isso (…) é o que se chama ‘apostasia’, que é (…) uma forma de ‘adultério’ que ocorre quando negociamos a essência do nosso ser: a lealdade ao Senhor”[20].Como se aponta nos parágrafos anteriores, mais de um Papa falou da apostasia que se manifesta entre nós.

– “A apostasia, a perda da fé, está se expandindo por todo o mundo e até mesmo nos mais altos níveis da Igreja”[21].

II. Desaparecimento da liberdade

Tanto o profeta Daniel quanto São João descrevem a “Besta” como uma potência mundial dominante a quem lhe é “dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação”.

A existência de um poder mundial, que tudo controla, está restando cada vez mais evidente[22], não só nas leis que impõem e restringem[23] as liberdades para “lutar contra o terrorismo”, mas ainda escravizando gradualmente não só os pobres como também a classe média através da “usura”[24]. Ademais, o Papa Francisco lamenta a “colonização ideológica” que obriga as nações de todo o mundo a adotar uma ideologia cada vez mais desumana.

Não se trata de uma bela irmandade global das Nações Unidas, cada um com seus próprios costumes, mas da globalização de uma uniformidade hegemônica em um pensamento único. E esse pensamento único é fruto da mundanidade[25].

III. Tecnologia sem direção

O Papa Francisco elucidou, da mesma maneira, a crescente ameaça do poder tecnológico que ameaça “não somente nossa política mas também a liberdade e a justiça”[26]. Prevalece um falso ideal como se “todo aumento de poder significasse um aumento do ‘progresso’ em si”[27]. Porém, isto não é possível – nos adverte Francisco – a menos que haja uma franca e aberta discussão da ética e das limitações da tecnologia. Da mesma forma que seu predecessor, Bento XVI, que enquadrou frequentemente as tendências econômicas e tecnológicas como um risco de escravizar à humanidade, de maneira similar Francisco adotou um tom universal que, ao mesmo tempo que toma nota dos benefícios e da necessidade da criatividade humana, nos adverte do crescente domínio da tecnologia por alguns poucos:

– “aqueles com conhecimento e, especialmente, com recursos econômicos para usá-los, têm um domínio impressionante sobre toda a humanidade e o mundo inteiro. Nunca antes a humanidade teve semelhante poder sobre si mesma e, ainda assim, nada nos assegura que tal poder será usado sabiamente, particularmente quando consideramos como vem sendo usado na atualidade. Basta pensar nas bombas nucleares lançadas no século XX, ou na série de tecnologias que o nazismo, o comunismo e outros regimes totalitários empregaram para matar milhões de pessoas; nem falemos do crescente arsenal de armas disponíveis para a guerra moderna. Em mãos de quem está ou, eventualmente, em que mãos pode chegar a cair esse poder? Sua posse por uma minoria é demasiado arriscada para a humanidade”[28].

IV. A aparecimento da “marca”

Alguém tem que ser um pouco ingênuo para não reconhecer o quão real e crescente perigo que está se tornando o comércio, cada vez mais restrito ao campo digital. Discretamente, sutilmente, a humanidade se vê cercada como gado em um sistema econômico no qual há cada vez menos participantes e cada vez mais controle centralizado. Os pequenos comerciantes são frequentemente substituídos por empresas de remessa pelo correio; os agricultores locais são substituídos por empresas multinacionais; e os bancos locais são absorvidos por enormes e frequentemente poderosas instituições financeiras anônimas, que colocam seus ganhos em primeiro lugar e só depois o benefício das pessoas, “interesses financeiros obscuros que transformam os homens em escravos privados de sua humanidade, porém que são eles próprios poderes abstratos aos quais o homem serve”, disse o Papa Bento XVI.[29]

Tecnologias que reduzem a compra e venda aos seus sistemas de reconhecimento digital correm o risco de eventualmente excluir aqueles que não “participam” do experimento social da maioria. Se, por exemplo, o dono de um negócio é forçado a fechar sua empresa por não fazer um bolo de casamento para uma cerimônia homossexual, quão tão longe estamos de um juiz ordenar o fechamento das contas bancárias daqueles considerados “terroristas” pelo Estado? Ou talvez, mais sutilmente, após o colapso do dólar americano e a chegada de um novo sistema econômico poderia ser implementada uma tecnologia que também demande a adesão a um “tratado global”? Os bancos já começaram a implementar na “letra tacanha” de seus contratos, cláusulas que insistem que seus clientes sejam “tolerantes” e “inclusivos”.

– “O Apocalipse fala da Besta, o adversário de Deus. Este animal não tem um nome mas um número. [No horror dos campos de concentração] foram canceladas as faces e as histórias, transformando o homem em um número, reduzindo-o a uma engrenagem dentro de uma enorme máquina. O homem não é mais que uma função. Em nossos dias não devemos esquecer que [o Holocausto] prefigurou o destino de um mundo que corre o risco de adotar a mesma estrutura dos campos de concentração, se a lei universal da máquina for aceita. As máquinas que foram construídas impõem a mesma lei. De acordo com esta lógica, o homem deve ser ‘interpretado’ por um computador e isso só é possível se for reduzido a um número. A Besta é um número e transforma os homens em números. Deus, no entanto, tem um nome e nos chama pelo nosso nome. Ele é Pessoa e vai em busca da pessoa”[30].

Estrangeiros e peregrinos

É evidente que os cristãos são agora os novos “estrangeiros”; nas nações ocidentais, nos tornamos objetos da violência. Visto que o número de mártires no século passado excede à soma dos mártires de todos os séculos anteriores combinados, é claro que entramos em uma nova perseguição da Igreja, que se torna mais agressiva a cada hora que passa. Este é outro “sinal dos tempos”, que indica que estamos próximos do olho da Tempestade.

No entanto, tudo isto é o que venho escrevendo e advertindo na última década, juntamente com muitas outras vozes na Igreja. O eco das palavras de Jesus ressoa nos meus ouvidos…

– “Eu vos tenho dito todas estas coisas para que, quando chegar a hora, vos recordeis do que vos tenho advertido” (João 16,4).

Tudo isto é para dizer a vocês, irmãos e irmãs, que os ventos estão embravecendo, as mudanças estão se acelerando, a Tempestade se tornará mais violenta. Repito: desde que esta tempestade começou, ao ver as notícias diárias, estamos vendo abrir, em tempo real, os Sete Selos da Revolução.

Porém, em tudo isto, Deus tem um plano para o seu povo fiel.Em fins de abril, compartilhei com vocês a palavra do meu coração: ”Vem Comigo”. Senti o Senhor chamando-nos mais uma vez a sair de Babilônia, a abandonar o mundo e entrar no “deserto.” O que eu não compartilhei naquele momento foi o meu profundo sentimento de que Jesus está nos chamando como uma vez chamou os “Padres do Deserto”: esses homens que fugiram das tentações do mundo, indo para a solidão do deserto para salvaguardar sua vida espiritual. Sua fuga para o ermo desolado gerou a base para o monasticismo do Ocidente, uma nova forma de combinar trabalho e oração.Minha impressão é que o Senhor está preparando lugares específicos para os quais os cristãos poderão ser levados, seja voluntariamente, seja por outra forma de remoção. Vi estes lugares para “exilados” cristãos, estas “comunidades paralelas”, em uma visão interior que tive há alguns anos enquanto orava diante do Santíssimo Sacramento (ver ”Os refúgios e solidões quem brotam”)[31]. No entanto, seria errado pensar que são apenas refúgios futuros; agora mesmo os cristãos precisam se agrupar, formar laços de unidade para prestar forças mutuamente, para ajudar e dar ânimo uns aos outros, porque a perseguição não é para amanhã: já está aqui.

Por isso, fiquei fascinado ao ler um artigo que apareceu na revista ”Time” da semana passada. Me emocionou por razões óbvias e parcialmente o cito aqui:

– “Nós, cristãos ortodoxos, devemos entender que as coisas se tornarão muito mais difíceis para nós. Teremos que aprender a viver como exilados em nosso próprio país (…) teremos que mudar a maneira com que praticamos a nossa fé e a ensinamos aos nossos filhos; a construir comunidades capazes de sobreviver”.

É o momento que eu chamo de “a opção Bento”. Em seu livro ”Depois da Virtude”, publicado em 1982, o eminente filósofo Alasdair MacIntyre comparou nossa era à queda da antiga Roma. Nos coloca Bento de Núrsia como exemplo: um jovem cristão devoto que deixou o caos de Roma para retirar-se aos bosques para rezar. MacIntyre diz que, se queremos viver de acordo com as virtudes tradicionais, devemos encontrar novas maneiras de fazê-lo. Diz:

– “Esperamos um São Bento novo e indubitavelmente diferente”.

Durante a Idade Média, as comunidades beneditinas formaram monastérios e mantiveram acesa a luz da fé rodeados por uma cultura obscura. Eventualmente, os monges beneditinos ajudaram a refundar a civilização[32].

Certamente, o Papa Bento nos advertiu, em sua carta a todos os bispos do mundo, que “a fé corre o perigo de morrer tal como uma chama que já não possui combustível”[33]. Porém, esta hora de audácia também apresenta uma oportunidade: a de ser guardião e defensor da fé, preservando a verdade e mantendo-a viva e acesa no próprio coração. Agora mesmo a “era de paz” que se aproxima está sendo formada nos corações daqueles que confiam em Jesus. Deus está preservando um povo, frequentemente escondido do mundo, por meio da ensinamento nos lares, novas vocações para o sacerdócio, e a consagração religiosa da vida, para chegar a ser sementes de uma nova idade, uma nova civilização do amor.

Estamos nos aproximando cada vez mais rápido e atingindo o Olho da Tempestade[34]. Quanto tardarão estas coisas para ocorrer? Meses? Anos? Décadas? O que eu posso dizer, queridos irmãos e irmãs, é que quando virmos estes eventos ocorrer (ainda agora mesmo) um após outro e parecendo que a Igreja e o mundo estão a ponto de se perderem, recordemos as palavras de Jesus:

– “Porém, Eu vos tenho dito estas coisas para que, quando chegue a hora, vos acordeis de que Eu já vos tinha falado delas” (João 16,4).

E, então, fiquemos tranquilos, sejamos fiéis e esperemos a mão do Senhor, que é refúgio de todos aqueles que permanecem Nele.

Notas:

[1] Novo Millenio Ineunte, nº 9.

[2] cf. “Faustina, and the Day of the Lord” (“Faustina e o Dia do Senhor”).

[3] cf. “How the Era was Lost” (“Como a Era foi perdida”); v.tb.: “Dear Holy Father… He is Coming!” (“Querido Santo Padre… Ele está vindo!”).

[4] cf. “The Popes, and the Dawning Era” (“Os Papas e a Era que Amanhece”).

[5] Lactantius, Fathers of the Church: The Divine Institutes, Book VII, Chapter 14,Catholic Encyclopedia (Lactâncio, Padres da Igreja: “As Instituições Divinas”, Livro VII, Cap. 14. Enciclopédia Católica).

[6] Letter of Barnabas, The Fathers of the Church, Chapter 15 (Epístola de Barnabé, Padres da Igreja. Cap. 15).

[7] cf. Millenarianism—What it is, and is Not (“Milenarismo: o que é e o que não é”).

[8] cf. Mateus 24,14.

[9] Santo Ireneu de Lião, Padre da Igreja (nascido em 140, falecido em 202 d.C.);Adversus Haereses, Irenaeus of Lyons, V.3.3.4, The Fathers of the Church, publ. CIMA Publishing Co. (“Contra as Heresias”, v. 3,3,4).

[10] The End of the Present World and the Mysteries of the Future Life (“O Fim do Presente Mundo e os Mistérios da Vida Futura”), por Fr. Charles Arminjon (1824-1885), pp. 56-57; Sophia.

[11] cf. Removing the Restrainer (“A Remoção da Restrição”).

[12] Papa Bento XVI, Audiência Geral, “Seja no fim dos tempos ou durante uma trágica falta de paz: Vem, Senhor Jesus!”, L’Osservatore Romano, 12/Nov/2008.

[13] cf. Dream of the Lawless One (“Sonho com o Audacioso”).

[14] Papa Francisco, Laudato si’, nº 123.

[15] cf. Laudato si’,, nº 142.

[16] cf. “Mystery Babylon” (“O mistério da Babilônia”).

[17] Papa São Pio X, Encíclica “E Supremi”, sobre a restauração de todas as coisas em Cristo, nº 3,5, 04/Out/1903.

[18] cf. Catholic Herald, 06/Jun/2015.

[19] Dr. Ralph Martin, Consultor do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização,What in the World is Going On? (“O que está acontecendo no mundo?”), documentário de TV, CTV Edmonton, 1997.

[20] Papa Francisco, durante uma homilia transmitida pela Rádio Vaticana em 18/Nov/2013.

[21] Papa Paulo VI, Discurso por ocasião do 60º Aniversário das Aparições de Fátima, 13/Out/1977.

[22] cf. Apocalipse 13,7.

[23] cf. Control! Control! (“Controle! Controle!).

[24] cf. 2014 and the Rising Beast (“2014 e a Besta que sobe”).

[25] Papa Francisco, Homilia de 18/Nov/2013.

[26] cf. Laudato si’,, nº 53.

[27] cf. Laudato si’,, nº 105.

[28] Laudato si’,, nº 104.

[29] cf. “Reflexão para depois da leitura do Ofício para a Hora Terceira”, Cidade do Vaticano, 11/Out/2010.

[30] Cardeal Ratzinger (posteriormente Papa Bento XVI), Palermo, 15/Mar/2000.

[31] Em inglês, The Coming Refuges and Solitudes.

[32] Rod Dreher em Time Magazine: “Orthodox Christians Must Now Learn To Live as Exiles in Our Own Country” (“Os cristãos ortodoxos devem agora aprender a viver como exilados em seu próprio país”), 26/Jun/2015.

[33] cf. S.S. Bento XVI a todos os bispos do mundo, em 12/Mar/2009; em Catholic Online.

[34] cf. The Eye of the Storm (“O Olho da Tempestade”).

The Hour of Lawlessness The Now Word


Uma campanha em três idiomas – entrevista com Carlos Caso-Rosendi

guadalupeShane Kapler

Uma vez que alguém conhece Carlos Caso-Rosendi é impossível esquecer-se dele. Carlos nutre paixão por levar o Evangelho ao mundo; mas isso não é tudo: ele o vem fazendo em três idiomas diferentes! Convertido ao Catolicismo (crescera em um lar de testemunhas de Jeová), fundou na Internet o Apostolado “Primera Luz”, difundindo em espanhol – e já adianto que logo o fará ainda em inglês e português – uma apresentação atraente, intelectualmente provocante e culturalmente envolvente da fé católica. Tem sido convidado para participar de diversos programas do canal EWTN, entre eles: “The Journey Home” (trad.“O Retorno ao Lar”) e “Nuestra Fe em Vivo com Pepe Alonso” (trad. “Nossa Fé ao Vivo com Pepe Alonso”). E se isto já não bastasse, escreveu um livro sobre a Virgem Maria!

Shane Kapler: Carlos, como você é um convertido ao Catolicismo, sei que nossos leitores gostarão de saber um pouco mais sobre a sua vida antes da conversão.

Carlos Caso-Rosendi: Nasci ao sul da Argentina, na região conhecida como Patagônia. No início da década de 1950, essa parte era quase que a fronteira do mundo. Tínhamos eletricidade, mas não muito mais do que isso. Não havia televisão, apenas uma ou duas estações de rádio locais. A região foi colonizada por criadores de ovelhas galeses e ingleses. Era um lugar difícil para se viver, frio e ventoso. Mas se o clima é frio, os habitantes normalmente são quentes e amáveis, com uma modéstia natural que os faz assemelhar um pouco com os camponeses britânicos.

Desde a tenra idade tive acesso a bons livros. Minha mãe – Deus a abençoe! – costumava comprar coleções inteiras de livros oferecidos pelos vendedores itinerantes das editoras de Buenos Aires. Desses anos, recordo-me especialmente de uma pequena Bíblia protestante, com que ela me presenteou e ainda guardo, e de um livro que alguém lhe havia deixado nessa época; o livro intitulava-se “Do Paraíso Perdido ao Paraíso Recuperado” e tinha uma capa rosa mostrando Adão e Eva com uma multidão de pessoas sorridentes caminhando para um futuro esplendoroso. Essa é a minha recordação mais antiga que possuo sobre a influência dos testemunhas de Jeová em nossa família. Esse mesmo livro possuía algumas ilustrações que então me causavam medo, pois mostravam pessoas caindo no abismo.

Minha avó paterna era de origem britânica. Foi professora do povoado por quase toda a sua vida; uma senhora muito doce e católica bastante devota, como apenas os católicos ingleses podem sê-lo. A casa da minha avó tinha um crucifixo em cada quarto; na minha casa não havia crucifixos e me lembro de ter perguntado por que não tínhamos um. Na minha imaginação infantil pensava que o nome desse homem crucificado era “INRI”. Quase meio século depois aprendi que “INRI” são as iniciais de “Iesu Nazarenus Rex Iudaeorum” em latim, enquanto que em hebraico a frase é “Yeshua Ha’nazarim Wimelec Ha’judaim”; essas são as iniciais do nome de Deus em hebraico, “YHWH”. Com efeito, no fim das contas, o nome do homem crucificado era “INRI” mesmo, porém me custou um tempão para saber disso.

Kapler: Em seu artigo “Para trazer beleza ao mundo” você nos contava como a arte religiosa fez parte da sua conversão. Poderia explicar isso aos nossos leitores?

Caso-Rosendi: Sim. Posteriormente, quando a família se mudou para Buenos Aires, minha mãe obteve uma cópia em espanhol da Enciclopédia Britânica. Juntamente com ela veio uma Bíblia Católica. Era a versão de Straubinger – que eu considero uma das mais belas traduções da Bíblia para a língua castelhana. As notas de rodapé são um tesouro de sabedoria. Monsenhor Straubinger deve ter sido uma alma bastante sábia e santa. Aquela Bíblia continha belas ilustrações de todos os artistas cristãos da Itália, Espanha, Alemanha, Países Baixos e outros lugares da Europa. Como sempre tinha gostado de desenhar e pintar, aquelas belas e dramáticas descrições de cenas bíblicas chamaram a minha atenção. Nessa época, minha família já tinha ingressado no culto das testemunhas de Jeová. Ali, no Salão do Reino, nos ensinavam que a Igreja havia apostatado por volta do ano 100 d.C. e acrescentavam que somente há pouco, em 1874, Deus havia comissionado Charles Taze Russel (um comerciante maçon de Pittsburg, na Pennsilvania) a publicar as revistas “A Atalaia” e “A Aurora do Milênio”. Também ensinavam ali que tudo o que ocorrera entre o ano 100 d.C. e o aparecimento de Russell era simplesmente obra do Maligno. O meu único problema com tudo isso eram as lastimáveis ilustrações de suas publicações (a única coisa que continua distinguindo essas revistas): quando eu as comparava com a beleza das obras de El Greco, Tiziano, Murillo e Velázquez, não conseguia explicar como Deus podia produzir isso em “A Atalaia” e o diabo, ao contrário, conseguia presentear a Igreja Católica com tão assombrosas obras de artes. Certa vez, tive a oportunidade de ouvir a “Missa Solemnis”, de Beethoven: a graça e a profundidade dos sons me restaram muito atraentes; e até mesmo a Paixão de Cristo pareceu-me tão real aos sentidos! Como alguém poderia pensar que isso era fruto de uma mente desviada e diabólica? Eu só tinha 13 anos quando começou a brotar na minha mente a ideia de que havia algo de muito errado no sistema de ideias dos testemunhas de Jeová.

Muitos anos depois, quanto já tinha 45 anos de idade, me deparei com dois livros: um era “Art and Beauty in the Middle Ages” (trad.“Arte e Beleza na Idade Média”)[1], de Umberto Eco, e o outro “The Discarded Image” (trad.“A Imagem Descartada”), de C. S. Lewis. Havia lido um pouco dos escritos de Jacques Maritain, sobre a beleza e a fé, quando tive uma espécie de revelação, algo que entretanto é difícil de descrever com palavras. A ideia da beleza agregada à da concepção do universo se fundiram com a ordem específica que eu conseguia enxergar nas Escrituras e, assim, as numerosas mensagens visuais da Bíblia – a “imago” de que falam alguns exegetas – se fundiram na minha mente com a Sagrada Liturgia, de modo que pude compreender tudo. Isto surgiu na minha mente como as múltiplas facetas de um diamante. A verdade era a luz e dava vida a todo esse complexo. Soube então que essa verdade e essa luz eram o amor de Deus e que eu deveria ser cristão e católico. Em um só instante pude entender como tudo estava organizado.

Ao mesmo tempo, compreendi que o mero conhecimento é um pobre substituto dessa espécie de verdade; essa verdade que penetra na alma como um dia de sol e fornece calor e energia ao corpo. É difícil de explicar, mas me dei conta de que ninguém pode chegar à intimidade com Deus apenas pelo estudo. A pessoa precisa experimentar a companhia de Deus da mesma maneira com que se experimenta o amor. Não existe uma novela romântica, por mais bem escrita que seja, que torne possível substituir a carícia ou a proximidade da pessoa amada. Entendi assim por que São Tomás de Aquino, após contemplar a Santíssima Trindade em uma visão, afirmou que todos os seus escritos eram como que um monte de mato seco.

Com o passar do tempo e um pouco de ajuda de Nossa Senhora, fui batizado na Catedral do Preciosíssimo Sangue de Cristo, em Londres, na Inglaterra, na Solenidade da Assunção de Maria, no ano de 2001. O local de meu batismo e confirmação não é muito longe do lar ancestral da minha avó paterna. Creio firmemente que foram suas orações que me trouxeram à Igreja. A minha conversão foi afirmada por outro súdito britânico, C. S. Lewis: foi ele quem agiu no meu intelecto. Minha avó agiu na minha alma, através da oração.

Kapler: No que você acredita ser importante para os católicos saber sobre os ensinamentos e as práticas dos testemunhas de Jeová?

Caso-Rosendi: Creio que podemos resumir a doutrina jeovista como a somatória e o aperfeiçoamento de todas as heresias, pois há nela elementos de todos os antigos erros: Arianismo, Donatismo etc.

Porém, algo que os jeovistas entendem corretamente é o princípio da autoridade. Não creem absolutamente na interpretação particular. Só aceitam como crenças aquilo que procede do escritório central no Brooklyn, sempre que vagamente conectada com as Escrituras. Por isso, é melhor não perder tempo falando com eles acerca dos muitos erros da seita; o melhor é mostrar-lhes os pontos centrais das Escrituras que nos garantem a autoridade e a permanência da Igreja.

Uma coisa que frequentemente uso é Mateus 16,13-20: os jeovistas creem que quando Jesus Cristo fala da “rocha” – que eles traduzem como “massa de rocha” – está se referindo a Si mesmo. Mas isso é fácil de refutar. Primeiro empregamos a “imago”: Jesus caminhou uma longa distância até a Cesareia para realizar essa reunião com os seus Doze Apóstolos na reserva romana, em território romano próximo da caverna-templo do deus pagão Pan. Essa caverna tinha alguns portões de ferro suficientemente fortes para que as pessoas não roubassem as oferendas ali deixadas aos deuses pagãos. Ali Jesus confere um novo nome a Simão bar Yonah: “Kefá”, “Pedro”, “a Rocha”. Fazendo uso da linguagem de Isaías 22,19-22, que fala da substituição de Shebna, o vizir ou mordomo da casa real, Jesus nomeia Pedro como o seu Sumo Sacerdote.

Pois bem: sabemos que os romanos estavam ocupando a fortaleza de Davi em Jerusalém e tinham nomeado um falso Sumo Sacerdote para Israel. Esse falso Sumo Sacerdote era Kaifás, o genro do verdadeiro Sumo Sacerdote, Anás. Observe-se que em aramaico “Kefá” e “Kaifás” soam parecidos. O próximo passo é comparar o significado destes nomes: “Kefá” significa “rocha” ou uma “elevação rochosa”; já “Kaifás” significa o contrário: um “afundamento” ou “depressão do terreno”. Jesus enriquece a “imago” indicando sutilmente que um (Kaifás) decrescerá em importância enquanto que o outro (Kefá, Pedro) crescerá e se tornará firme. A ordem do Antigo Testamento atinge o seu fim e agora a Igreja do Novo Testamento deve avançar e crescer.

A menção às “portas do inferno” tampouco é sem sentido. As portas são elementos defensivos. O peso das palavras de Jesus indica que a Igreja “tomará a porta de seus inimigos” (Gênesis 24,60) e se apropriará dos seus tesouros – tais como essas oferendas valiosas da caverna de Pan, próxima dali. Com o passar do tempo, Pedro conquistará até mesmo Roma, a capital dos césares. A púrpura, símbolo do poder do imperador romano, será agora a púrpura dos bispos romanos. A Igreja conquistará para si os troféus de Roma, inclusive sua linguagem, e os tomará para si. Tudo isto e muito mais está claramente contido na nomeação profética de Pedro como mordomo do Reino de Deus para sempre.

A clareza desta imagem é suficiente para obrigar a quem quer que seja a pensar longamente antes de negá-la. Sua plenitude bíblica é inegável. Uma vez que se tenha começado a provar a autoridade da Igreja, o resto segue facilmente: somos a Igreja, a Bíblia é nossa. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!

Kapler: Poderia descrever o seu Apostolado para os nossos leitores, o “Primera Luz”? Do que se trata?

Caso-Rosendi: “Primera Luz” começou em 10 de outubro de 2004. Nossa missão está em consonância com a terceira parte da encíclica papal “Redemptoris Missio” e, de fato, com todo esse documento em que João Paulo II exorta a toda a Igreja:

“Povos todos: abrí as portas a Cristo! O Seu Evangelho não tira nada à liberdade do homem, ao devido respeito pelas culturas, a tudo quanto de bom possui cada religião. Acolhendo Cristo, abri-vos à Palavra definitiva de Deus, Àquele no qual Deus se deu a conhecer plenamente e nos indicou o caminho para chegar a Ele” (Redemptoris Missio 3).

“Primera Luz” é, basicamente, uma apresentação apologética da visão católica do mundo. É orientado aos mais de 600 milhões de pessoas de fala hispânica. Tentamos ter uma apresentação que nos diferencie daquela forma um tanto pesada que caracteriza outras páginas de cultura católica hispânica. Queremos algo que seja vibrante e atraente. Queremos também que muitos escritores católicos de fala inglesa, portuguesa, italiana, francesa, sejam lidos em espanhol e que sejam ouvidos, que soem fortes.

Atualmente, um entre cada quatro latino-americanos que foram batizados na fé católica se identificam como agnósticos ao atingirem os 20 anos de idade. Estamos sangrando almas a uma velocidade que é, ao mesmo tempo, escandalosa e triste de se ver. Estão construindo mesquitas no feudo de Nossa Senhora de Guadalupe. Todo o continente, incluindo uma boa parte dos que vão à Missa aos domingos, é composto por marxistas-“light”, que acreditam na maioria das lendas negras criadas para difamar a Igreja. Sacerdotes da teologia da libertação estão conduzindo cerca de um milhão de “estudos bíblicos” por todo o continente que outrora foi o manto de Maria, a glória do Cruzeiro do Sul. O que está ocorrendo faz com que ferva o sangue de qualquer católico que tenha um mínimo de amor pela fé.

Pior ainda: o rei da Espanha firmou recentemente uma lei despenalizando o aborto enquanto todo o corpo episcopal espanhol se mantinha em silêncio. É um crime que invoca o castigo do céu. Eu não sei o que os outros irão fazer, mas Deus me deu alguma habilidade para comunicar; espero ter alguns anos de boa saúde pela frente e utilizá-los bem. Quero as minhas mãos e a minha consciência limpas do sangue de qualquer homem e estou determinado a lutar esta batalha que Deus exige que lutemos. Sem limites e sem condições.

Podem parecer sem sentido estas palavras, mas esta é a missão do “Primera Luz”: levar a primeira luz da Criação, o amor de Deus, a todos os que leem em espanhol, inglês e português. Os “sites” em português e espanhol estão se formando agora. Com o auxílio de Deus, logo os teremos prontos.

Kapler: Como foi que você chegou a trabalhar com a “Coming Home Network” de Marcus Grodi?

Caso-Rosendi: Eu entrara em contato com o autor católico Bruce Sullivan por e-mail porque estava à procura de um bom livro que analisasse o Sacramento do Batismo. Nos tornamos amigos e ele contatou a CHN. Uma curiosa coincidência ocorreu quando recebi um convite para participar do programa. O convite chegou no dia da Natividade da Virgem. Por “casualidade”, minha primeira entrevista na TV ocorreu em 12 de dezembro de 2005, na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira do “Primera Luz”. Depois fui convidado para o programa “Nuestra Fe em Vivo com Pepe Alonso”, na EWTN, no dia 13 de fevereiro seguinte, que é “outro dia” da Virgem de Fátima. Essas três coincidências consecutivas foram como que um sinal de Nossa Senhora, de que eu tinha um trabalho atribuído por ela e que talvez esse trabalho fosse se desenvolver nos meios de comunicação.

Kapler: Fiquei impressionada com o seu livro “Arca da Graça: a Virgem Maria nas Sagradas Escrituras”, que é bem completo. Como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Caso-Rosendi: “Arca da Graça” é o meu primeiro projeto em três línguas. Rebecca Smith foi a corretora da primeira versão em inglês. Depois eu o traduzi para o espanhol, que recebeu a revisão do Rev. Pe. Horacio Bojorge, sj. Meu querido amigo Carlos Martins Nabeto, advogado canonista de São Paulo, Brasil – um excelente tradutor – traduziu a versão portuguesa. Devo admitir que a versão portuguesa é, a meu juízo, melhor que a original; soa como música para os meus ouvidos.

Eu queria honrar Nossa Senhora e agradecer-lhe pela minha conversão e sua constante proteção. Parece-me incrível que outrora, no passado, eu considerava Maria como um obstáculo para a minha conversão. Hoje ela é minha companhia diária na oração e nela foco todo o meu trabalho. Quero ser seu filho porque finalmente compreendi que ser filho de Maria é a maneira mais doce de ser como Cristo, seu filho.

É triste ver como muitos católicos não sabem como defender sua Mãe dos ataques dos “evangélicos” e sectários ignorantes. É uma situação penosa, de modo que creio que já era tempo de alguém fazer algo a respeito. O livro é simples e breve. As passagens da Bíblia estão incluídas no texto. O livro pode ser publicado a baixo custo. Não consegui reunir dinheiro suficiente para publicá-lo simultaneamente nos três idiomas, mas pude publicá-lo no sistema eletrônico Kindle, da Amazon. Espero que Nossa Senhora inspire alguém que possa financiar a publicação destes três primeiros livros.

Kapler: Onde podemos obter uma cópia?

Caso-Rosendi: Cada capítulo pode ser lido gratuitamente em espanhol e inglês na Seção Apologética de “Primera Luz” e “Delumen”, respectivamente, junto com outros artigos que ensinam a defender a fé. Devo apontar especialmente que todos os artigos publicados em nossa seção de apologética possuem o “Nihil Obstat” e o “Imprimatur” de um bispo da Igreja Católica. Os dados estão disponíveis para qualquer pessoa que queira conferir.

Como disse anteriormente, espero que um patrocinador nos permita produzir estes três livros em edição impressa nas três linguagens ao mesmo tempo. Posso garantir que as versões em português e espanhol venderão muito bem. A versão Kindle está disponível em espanhol, inglês e português na Amazon.com.

Kapler: Quais são os seus projetos atuais?

Caso-Rosendi: Através do “Primera Luz” quero apresentar páginas web, livros, audiovisuais e dar continuidade à nossa presença na Internet. Quero que chegue a ser um esforço autofinanciado porque já há muitas organizações católicas que solicitam donativos para operar e operam no vermelho. Queremos trabalhar sem ter que gastar muito tempo e esforço pedindo donativos. Queremos ser diferentes também nesse sentido. O exemplo nos é dado por São Paulo, que fabricava tendas para sustentar o seu trabalho evangélico. Para me sustentar agora, colaboro como assessor técnico de vários sites católicos, ainda que – devo dizer – não seja suficiente para sustentar este esforço. Finalmente, gostaria de pedir aos nossos irmãos católicos dos países assim chamados “do primeiro mundo” e outros países onde há uma riqueza maior, que por gentileza visitem a nossa Página e subscrevam uma doação mensal segundo a sua capacidade econômica. O que posso pedir a todos é que rezem uma Ave Maria todos os dias por nossos irmãos e irmãos de fala hispânica, principalmente os do hemisfério sul. Desde os dias de São Francisco Solano e Santa Rosa de Lima, o nosso continente tem sido um baluarte da Vera Cruz. Oremos para que o estandarte de Cristo possa novamente ondular triunfante sob o Cruzeiro do Sul.

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Notas:

[1] “Arte e Beleza na Idade Média”, publ. “Sviluppo dell’estetica medievale”, in Momenti e problemi di storia dell’estetica; 1959.